ROBERTA SÁ

AMOR AO SAMBA

"Delírio" marca o retorno da cantora ao gênero que a projetou

Entrevista publicada na revista Latina em janeiro de 2016

“Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno”, a frase do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade é uma das melhores definições para o momento artístico da cantora Roberta Sá.

Com 10 anos de carreira e lançando seu sexto álbum, “Delírio”, a intérprete larga mão da tecnologia e da música pop para se entregar à essência do samba, gênero que a projetou.

Nascida em Natal (RN), Roberta Sá mudou-se para o Rio de Janeiro aos nove anos. A voz afinada, o canto cristalino, que mistura força e delicadeza nas interpretações, e o sorriso cativante levaram a cantora ao posto de uma das mais importantes vozes da MPB contemporânea.

Em busca de novos caminhos para a carreira e para a voz, Roberta Sá desembarca com composições inéditas assinadas por Adriana Calcanhotto (Me Erra), Tom e Moreno Veloso (Um só lugar e Meu novo Ilê, respectivamente), além das participações de Chico Buarque (Se for pra  Mentir), Martinho da Vila (Amanhã é Sábado) e Xande de Pilares (Boca em boca).

Depois de cinco discos e 10 anos de carreira, foi diferente entrar no estúdio e gravar um novo CD?

Foi muito. Até porque a proposta do “Delírio” era diferente de tudo o que já tinha feito. Entramos em estúdio para gravar com a banda base tocando junto. Normalmente, gravávamos o violão, depois baixo, tudo separado. Até surgiu a ideia de eu cantar ao vivo, mas como não tive muito tempo de ensaio, não foi possível. Mas, na hora de colocar as vozes, fizemos com o mínimo de edição, mudamos muito pouco mesmo, uma frase em cada música, no máximo. A ideia era que não houvesse interferência digital nem correções.

Por que a opção de gravar a banda tocando junto e usar pouca tecnologia?

Estava com vontade de fazer uma música mais tradicional, com formação de bandolim, baixo e violão. Queria aprender com o processo e sair do disco com esse tipo de aprendizado. A edição tecnológica funciona muito bem para a música pop, mas dentro da tradicional a pegada tem que ser mais leve. Isso também é um reflexo do que quero para mim: uma vida mais analógica.

Gravar dessa maneira foi mais desafiador?

Muito. Você gravar uma faixa inteira sem cortes é um exercício de humildade. A voz humana não é perfeita e deixar algumas coisas que normalmente eu tiraria foi difícil. Depois desse trabalho até voltei a ouvir música do jeito que escutava, isso para mim foi muito bom.

Como você escuta música?

Hoje em dia escuto no Spotify e muita música no vinil. Tenho gostado cada vez mais do som do vinil.

“Delírio” também saiu em vinil. Tem a ver com essa paixão ou com a forma como ele foi gravado?

O disco já foi gravado pensando em ser vinil. Pensamos nele com lado A e com lado B. Isso foi legal, essa quebra ajudou a planejar a ordem das músicas.

O que te motiva alançar um novo álbum?

Isso está cada vez mais claro nos shows. Pode ser até uma coisa meio egoísta, mas a música é a minha meditação, é a minha salvação. Não me vejo vivendo sem música nesse mundo estranho do jeito que está.

É fácil estar no palco?

Tem sido maravilhoso. Comecei como uma cantora de estúdio e, então, o palco foi uma conquista. Mas agora que ele é meu, não abro mão jamais.

casamento com o samba

“Delírio” marca sua volta ao samba, gênero que te projetou. Por quê?

Sinceramente, o samba é onde cabe melhor a minha voz e isso foi uma descoberta. Gosto de ouvir muita coisa, mas a minha voz casa com o samba. Toda vez que me escuto cantando samba gosto mais do que cantando outras coisas. Também foi uma percepção de quem sou eu, do meu tamanho e uma questão de maturidade. O disco “Segunda Pele” era superpop e gosto muito do resultado, precisava fazer essa tentativa, mas o caso é que sou mais feliz cantando samba.

Apesar de ser um disco de samba, ele não é tão é tradicional. Existe uma sonoridade contemporânea. Como foi a construção sonora do disco?

Achar uma identidade sonora e um repertório é difícil. Mas nesse disco ficou uma coisa que já sabia há muito tempo e foi confirmada: é o jeito de tocar que deixa o trabalho contemporâneo. Você não precisa ter muita interferência de máquina para que aquilo soe moderno, o jeito de tocar que deixa atual e, se Deus quiser, eterno (risos).

“Delírio” carrega uma atmosfera meio cabo-verdiana. Como o estilo morna entrou no disco?

Eu fui muito para Portugal com Rodrigo Campello (produtor do disco) e lá a influência africana é muito mais presente, é incrível a troca da África com Portugal. Acho que a música cabo-verdiana tem essa coisa da liberdade que estamos procurando. A forma livre de fazer, um jeito mais sentindo e menos pensando. Acabamos colocando uma “tintazinha” de Cabo Verde no trabalho.

O disco tem algumas faixas que evocam calmaria e serenidade. Por que o nome “Delírio”?

É um disco que fala muito pelas letras e é focado na paixão. Eu fiquei pensando onde está o amor? Como falar de amor nos dias de hoje? Acho que é um delírio, o amor é quase uma alucinação, nos tempos atuais.

os compositores

Das 11 faixas, oito são inéditas e algumas compostas especialmente para você. Como essas composições chegam até você?

Saio de porta em porta pedindo (risos). Se encontro um compositor que gosto, peço música. Mas nesse disco aconteceu uma coisa muito especial. Quando fiz 10 anos de carreira, comecei a pensar no disco e estava com algumas questões, como o porquê gravar e até se deveria continuar cantando, se valia a pena mesmo. Conversando com os compositores o que gostaria de dizer tive uma resposta muito positiva. A Adriana Calcanhotto e o Martinho da Vila fizeram músicas para mim. Isso me deu voz de novo. Eles não sabem o bem que me fizeram. Foi como se mais uma vez endossasse uma razão de cantar e não só pelo que eu gosto de fazer, ainda tinha muita coisa a ser dita.

Você pede a música já dando um tema?

Sim. Com o Martinho falei que queria uma música que tirasse a mulher do lugar de musa e levasse para o lugar de protagonista. A mulher de hoje é assim. Ela ganhou força e poder e é engraçado que tenho ouvido muito isso nas letras de funk, e no samba estava sentindo falta dessa mulher, como bem disse a Adriana, na música: “rainha da bateria”. Queria muito que essa mulher fosse representada no disco.

E se você não gostar de uma música que receber?

Agradeço (risos). Estou tentando gravar uma da Adriana desde o meu primeiro disco. E não é que não goste, ela dificilmente vai fazer uma coisa que me desagrade. Mas os compositores sabem que a música pode não caber naquele momento. Acho que não existe “saia justa”. O que a gente sente e o que quer dizer é muito pessoal. Eu sou uma compositora muito preguiçosa, faço uma música a cada seis anos, então o que gosto mesmo é dessa relação com os compositores.

Além desses compositores consagrados sempre aparece um nome novo nos seus trabalhos?

Acho importante que eles apareçam. Faço questão de gravar compositores que nunca gravei e músicas inéditas. Acho que isso movimenta muito a música brasileira. Nesse disco gravei, pela primeira vez, o Cesar Mendes. Encontrei ele por meio da Teresa Cristina, que foi outra coisa linda que aconteceu. A Teresa me ligou para dizer que tinha um compositor para me dar músicas e foi lindo, porque estava com sete músicas no disco e não sabia como terminá-lo. Encontrei o Cezinha e ele me deu duas músicas inéditas e me mostrou “Se for pra mentir”, que acabei gravando com o Chico Buarque. Foi um ato de amor e generosidade da Teresa, que espero um dia retribuir.

participações e chico buarque

O seu ‘Delírio’ é recheado de participações. Por quê?

Foi acontecendo. É uma maneira de encontrar as pessoas e isso me engrandece muito. Desde o meu primeiro disco é um habito que tenho de chamar artistas para colaborarem. O Zambujo e o Martinho já tinham gravado quando resolvi chamar o Chico Buarque, até me perguntei se seria um pouco demais, mas a música era tão a cara dele que não podia deixar passar. Como é um disco sobre mulheres eu chamei três homens que amam muito as mulheres, que entendem muito de mulher e que são homens que louvam as mulheres. Então, nada mais justo.

Como foi levar Chico Buarque para gravar uma música que não era dele?

Eu liguei para ele e falei: ‘ Chico, estou com uma música que é a sua cara. Sabe aquele samba que você não fez pra mim? Então, o Cesinha fez’ (risos). Ele achou engraçado, eu mandei e ele adorou. Na hora de gravar o jeito que ele cantou foi tão diferente do meu jeito, que aprendi, e já estou cantando diferente no show. Isso é maravilhoso. É aula, uma universidade.

Qual a diferença de lançar o sexto e o primeiro disco?

Tem uma coisa que é muito legal em lançar o primeiro trabalho e outro agora que tenho 10 anos de estrada. Agora, aprendi a construir uma carreira e não um disco só. Se você pensa que outros discos virão, as coisas ficam muito mais leves. Antigamente, dava um peso muito grande ao lançamento, e hoje é mais um no meu caminho. Assim fica mais fácil de ouvir crítica, de ouvir elogio.

Falando em crítica, alguns jornalistas no Brasil reclamaram da sua afinação, dizem que você é afinada demais. Como é para uma cantora receber esse tipo de “reclamação”?

É incrível, não é? Mas isso não vou mudar. Não vou mexer em uma coisa que gosto de ouvir e num apreço que tenho pelo meu trabalho. Algumas pessoas no Brasil sofrem uma “síndrome de gostar”, ou achar que só canta bem quem canta rasgado e gritando. Gosto de cantar suave e afinado. Sou um pouco mais bossa nova. Para falar a verdade, no meu caminho quero ficar ainda mais afinada (risos). Mas meu público entendeu bem o disco, meus shows estão lotados e isso para mim é o que interessa.

Também existe uma cobrança da mídia pelo seu sucesso. Alguns dizem que você já poderia ter uma projeção maior. O que você acha?

Eu não quero falar dos outros, mas do meu movimento. O meu movimento é o de achar o meu tamanho. Quero cantar o que gosto. Tenho muita vontade de tocar no mundo todo, por exemplo, voltar ao Japão, que foi maravilhoso. Tenho muita vontade de encontrar o público que está interessado na música que faço, porque sei que existe. Mas ser maior a qualquer custo, ter um tipo de público que não gosta de música e sim da celebridade, isso não me interessa.

Você busca novos caminhos para a sua voz?

Estou buscando um jeito diferente de cantar, querendo me arriscar mais. Estava meio entediada com a minha maneira de fazer as coisas, tem uma hora na vida que você precisa mudar, arriscar e acho que isso é uma postura que vai ficar para mim. Fazia as coisas de uma maneira mais segura e isso estava me incomodando muito. Eu me cercava muito, era muito protegida. Tenho ainda algumas barreiras para quebrar, mas eu quebro com muito gosto.

Você é cantora e produtora e está presente em cada detalhe do “Delírio”, da direção de arte da capa ao repertório. Dá tempo de tomar conta de tudo ou consegue delegar?

Consigo delegar, tenho uma equipe muito boa e muito alto astral. Mas quando estou fazendo o disco, gosto de ver tudo. Nesse álbum foi mais claro para mim que gosto da arte como um todo. Desde a escolha do repertório, até a pesquisa de imagem. Quando não fiz isso fiquei incomodada. Então gosto de fazer, é um jeito de colocar minha personalidade em outras coisas. A gente não é uma coisa só.

Em 2010, você se apresentou no Japão. Como foi?

Foi incrível. Primeiro porque encontrei um público japonês que não esperava. Pessoas que aprendem português para ouvir as músicas e isso é uma coisa inacreditável. É lindo demais. São pessoas que de fato amam música. Senti um respeito muito profundo pelo meu trabalho e me emocionei. Senti que a música que a gente faz é importante. Fora que é um país sensacional. Adorei a comida e adorei as pessoas.

Planos de voltar?

Estou doida para voltar. Acho que ano que vem, se conseguir, quero muito ir. Estou com muita vontade mesmo. Se me levarem eu vou.

Como você planeja sua carreira?

Disco a disco. Não dá para planejar muito lá para frente. Mas aprendi que gosto de cantar e lançar meus discos em teatro. Essa coisa de um tom mais pessoal foi uma vontade de fazer uma música que as pessoas escutem e não fazer só uma música para elas dançarem. Planejo de modo que eu possa envelhecer. Não quero fazer uma música sempre jovem, estou envelhecendo, quero falar as coisas que aprendo. A Maria Bethânia fez isso muito bem e não é que a música dela envelheça, a música dela está sempre contemporânea, mas tem um amadurecer no sentindo da roupa, do gesto, da arte, e tem no fato de não tingir o cabelo, acho que não chegaria a tanto (risos). Mas o tempo passou muito bem para ela e foi ela quem fez isso.