PABLLO VITTAR

A VOZ POP DO BRASIL

Ao misturar batidas eletrônicas com ritmos regionais, a drag queen mais famosa do mundo se firma como uma cantora pop de alma brasileira

Entrevista publicada na revista Latina em fevereiro de 2019

Pabllo Vittar pode ser considerada a maior artista pop brasileira da atualidade? Com 8 milhões de seguidores no Instagram, a drag queen mais seguida no mundo tem mais de 1 bilhão de views e streams em sites de vídeo e música e é uma das vozes mais ouvidas do País.

Dona de números e feitos impressionantes (foi a primeira drag a ser indicada ao Grammy), Pabllo se transformou em um fenômeno, em 2017, mexeu com o mercado nacional e aqueceu a carreiras de outras artistas LGTBs (novas e veteranas).

É com essa bagagem que a cantora chega com o seu mais recente trabalho “Não Para Não”, segundo disco da carreira e primeiro lançado por uma gravadora grande (Sony).

As raízes musicais da artista, nascida no Maranhão e criada em Minas Gerais, se encontraram com o som eletrônico que a tornaram conhecida nacionalmente. Tecnobrega, pagode baiano, carimbó, forró fazem conexões com batidas internacionais e levam a cantora a fidelizar um público cada vez mais diverso e numeroso.

Em entrevista, a drag brasileira conversou sobre o início da vida artística, seu primeiro contato com a música ouvindo Elis Regina e Alceu Valença, as influências de Whitney Houston e Lady Gaga e o estranhamento da sua voz no começo.

Você imaginou que um dia estaria dando entrevista para uma revista do Japão?

Nunca pensei. E não é uma revistinha qualquer. E olha que sempre gostei da cultura japonesa, lá é um lugar que quero muito conhecer.

A sua música e a sua performance têm tudo a ver com o jovem de lá, não é?

Com certeza, porque o Japão tem de tudo, é bem diverso. E é isso o que faço com a minha música também – misturo vários ritmos e sempre dá um resultado bem interessante.

Aproveitando o assunto. Como está a sua carreira internacional?

Estou caminhando bem devagar, um passo de cada vez. Amo os meus fãs do Brasil e amo a energia de fazer shows aqui. Lancei agora minha turnê da América, que vai passar pelo México, Argentina e Chile. Tem um show em Portugal, mas aí é para a Europa. Estou muito feliz, porque tenho um contato muito grande com essa galera pelo Instagram. Estou sempre falando “muchos besos, muchos besos”. Agora a gente vai poder ter um contato mais de pertinho.

No Brasil você já dominou o palco. Você imagina o que vai receber do público lá fora?

A gente nunca sabe o que vai receber, por mais que sejam fãs, sabe? Sempre a energia te surpreende, nunca é a mesma coisa. Lá fora espero muito amor e muito carinho. Porque é o que já sinto deles. Ano passado fui para Buenos Aires e os fãs de lá são tão loucos quanto os do Brasil. Já chegavam com tatuagens e eu falava: ‘gente, o que é isso’.

Você se lembra do primeiro contato que teve com a música?

O primeiro contato com a música veio com a minha mãe. Ela que sempre foi a pessoa musical da família, que comprava disco em vinil. Hoje voltei a escutar música em vinil, comprei uma vitrola e é muito bom o som. Mas minha mãe foi a primeira pessoa a colocar música no meu dia a dia. Ela escutava muita música brasileira e muita música dos anos 1990 internacional. Shania Twain etceteras e tals.

Quando ouvi a Lady Gaga e toda aquela exaltação no palco eu pensei: ‘caralho, quero fazer isso!’

Quais foram os seus primeiros ídolos e como eles te influenciaram?

Donna Summer, Whitney Houston, Beyonce, Mylla Karvalho, da Companhia do Calypso, é minha religião. Cada cantora teve um papel fundamental para a pessoa que sou hoje. Eu escuto até hoje e é o mesmo sentimento de quando minha mãe colocava para eu ouvir.

E como elas entram na sua música?

Em diversos momentos – inspirações para letras e para melodias. Vocalmente falando, eu amo os melismas, e como cada uma coloca a voz de um jeito diferente. Sempre busquei isso, porque quando comecei a cantar ouvia e tentava reproduzir. E cada uma faz de um jeito diferente. Então, você já imagina, né?

Você não falou da Lady Gaga que foi uma das principais inspirações no começo da sua carreira.

Eu sempre quis ser cantora, mas quando ouvi a Lady Gaga e toda aquela exaltação no palco eu pensei: ‘caralho, quero fazer isso!’.

Você disse que sempre quis ser cantora, mas houve algum momento em que percebeu que isso poderia ser uma profissão?

Sempre acreditei, mesmo sendo muito difícil. Passei por muita coisa muito difícil, mas sempre acreditava, batalhava e buscava aquilo, porque se eu não fosse buscar, quem iria para mim? Só tenho a agradecer os caminhos que percorri, as pessoas que me ajudaram a chegar até onde cheguei.

Você fez alguma escola de música?

Não. Eu ouvia e reproduzia. Nunca fui a aula de canto.

A passagem pela igreja teve uma importância na sua trajetória?

Sim. Eu era tão novinha, para mim era um grande show. Uma residência em Las Vegas. Eu ia lá cantar e tinha várias pessoas que me aplaudiam. Amava cantar. Claro que estava lá buscando Deus, mas amava cantar. E louvar. E o pessoal curtia a minha vibe. É isso o que busco nos shows até hoje.

No Brasil as cantoras têm uma trajetória: começa cantando em barzinho, depois tem o circuito SESC e chega a um patamar maior. Como foi o seu caminho?

Eu fiz muita festa privada, muito barzinho. Cantava com um amigo meu em Uberlândia (MG) que tocava violão. Eu ia linda, montada e a gente cantava vários acústicos. Ariana Grande, Rihanna. Tudo pop acústico. E eu amava, amava, amava. Depois fui para as baladas, quando lancei meu primeiro EP. Cada balada é um rolê diferente, amor, é balada. Aí depois vieram os palcos grandes. Mas amo tudo. Cada momento foi importante para mim.

No começo, sua voz causou estranhamento por uma parte do público. Como você via isso?

Eu sempre ouvi muito falarem da minha voz, que era chata. Bem no comecinho, quando ainda era criança, ficava um pouco calada, mas só nos primeiros dias. Mas gente, é a minha voz, vou fazer o quê? Ela vai estar comigo o resto da minha vida. Tenho que amar ela. E eu me apropriei disso de uma forma muito minha.

Você se preocupava com os comentários?

Eu via os comentários e não me abalavam em nada, porque desde pequena escuto isso, sabe? E fico muito feliz de poder chegar a lugares que eu chego com a voz que tenho, porque não sou só eu que tenho essa voz. Tem várias outras “bi” e afeminadas que tem a voz aguda e sofrem o mesmo preconceito. E minha voz é linda.

Como foi transformar esse “estranhamento” em personalidade?

Não sei, acho que porque sou muito verdadeira, tanto como pessoa quanto como artista. Não sei fazer tipo. O Pabllo que você está vendo aqui é o mesmo Pabllo do palco. Que gosta de estar se divertindo. Isso acaba se transferindo para a minha voz de alguma forma, não sei. Eu amo muito poder transmitir meus sentimentos através da minha voz. Acho isso lindo.

Você se escuta?

Eu amo me escutar, eu malho ouvindo "Não Para, Não" é ótimo para malhar. É o tamanho certo da minha série, te juro. Dá para fazer tudo, até o agachamento.

Agora você está cantando em tom mais grave?

Sim, estamos trabalhando um tom mais grave. Ainda trabalho com agudo, porque amo. Mas estou explorando os graves e médios também. Eu amei o resultado no álbum. Escutando dá para perceber uma diferença vocal tremenda do ‘Vai Passar Mal’ para o "Não Para Não". E eu estou muito orgulhosa de mim mesma.

Você acha que é um aperfeiçoamento?

Óbvio. Porque trabalho para melhorar. Quero sempre estar melhorando. Provando não para os outros, mas para mim mesma que sou capaz.

Como você trabalha a parte do palco? Porque tem a cantora e a drag queen.

Eu acho que drag é tudo isso. O novo show é ensaiado com o Flávio Verne, meu coreógrafo. E a gente está sempre se aperfeiçoando. Vou estrear umas coisas novas no show e estou muito ansiosa. Inclusive, vou até passar o som. E é um show que é ensaiado, mas com a minha estética, com a minha diversão, com a minha personalidade que o pessoal já conhece. Eu sou muita safadinha no show.

Tem uma preocupação com o canto também?

Sim, sempre. Tem que ter. Tem que entregar os dois, a galera quer voz e quer performance. Ou então ‘baby, não suba no palco!’.

O que o palco representa para você?

É tudo na minha vida. Eu esqueço todos os meus problemas. Às vezes pergunto para outros amigos meus que são cantores e fazem shows se eles se divertem nos shows e eles dizem: ‘ai, Pabllo, às vezes”. Gente, eu me divirto muito no meu, parece que estou em uma balada.

Tem uma frase sua que o fato de você estar no palco hoje nesse momento que o Brasil vive já é um ato de coragem e até político...

Sim, total. Não só por esse momento que a gente vive. Por todos os momentos que a gente já viveu. Vivendo transfobia e todo esse preconceito. Tem várias drags explodindo no cenário musical, tendo reconhecimento fora, entrando na casa das pessoas e mostrando que existem sim diferenças e diversidade. Elas estão aí para ser respeitadas. A gente não tem mais tempo para ficar se debatendo sobre isso. Tem que se respeitar e ponto.

E no estúdio?

Eu amo o estúdio. Eu amo ir para o estúdio criar e compor junto do (Rodrigo) Gorky. Sempre estou lá e ele sempre está me mostrando novidades. É um lugar sagrado, é onde acontece tudo.

Música ou melodia – o que você precisa primeiro para gravar uma música?

Melodia. Porque meu processo de criação é esse, quando vou compor o Gorky me manda a batida antes e gente trabalha a base. Eu trabalho primeiro com a melodia da música para sentir o que aquela batida desperta em mim. O que vou falar em cima daquilo.

Você compõe sozinha?

Sozinha. Em qualquer momento. Tenho também um grupo de composição. A gente conversa muito e eles me conhecem bem e já sabem do que eu vou gostar. Sai mais fluido, não uma coisa engessada.

Sempre quis me mostrar. E acho que consigo fazer isso na música

Você tem dois discos e falam que a sua música é muito autobiográfica. Se a gente ouvir seus discos dá para começar a montar a sua biografia?

Meu amor, dá para falar tudo o que a Pabllo viveu nesses dois álbuns. Inclusive esse segundo, que peguei referências da minha infância e da minha adolescência, do Pará e do Maranhão.

Como é levar a sua história para a música e apresentá-la ao mundo?

Não seria diferente de quem eu sou desde sempre. Sempre quis me mostrar. E acho que consigo fazer isso na música.

Diferente das suas entrevistas, que você levanta uma bandeira forte do universo LGBT, isso não acontece nas suas músicas. Você fala de amor, desilusão, festa.

Porque eu já estou aqui, já sou uma drag, bicha, afeminada, no país que mais mata homossexuais no mundo. Eu não preciso chegar e ficar batendo nessa mesma tecla. Amo as minhas amigas que fazem músicas com militância, mas a minha música de amor também é uma militância.

Qual a importância das parcerias na sua carreira?

Eu amo fazer música e contribuir com outros artistas. Acho que somar talentos é incrível. E quando você faz com algum artista que você ama também é o máximo.

O que a pessoa precisa ter para ser seu parceiro?

Ela tem que ser ela, porque eu também sou assim, então não vai dar para a gente compor junto ou fazer alguma coisa que não seja isso.

Você acha que existe uma aproximação sua com a MPB?

Sim. Eu adoro a Duda Beat, a Alice Caymmi. Minha mãe escutava muito Elis Regina, Caetano Veloso, Gilberto Gil. Eu vou na casa da Preta [Gil] e fico babando com ela, porque sou muito fã. Nas letras da minha música tem muito essa aproximação, falar de amor sempre fala na MPB. E eu busco muito falar disso. Porque é o que está faltando no mundo: amor. Acho que essa é a proximidade que tem.

Você acha que a gente pode classificar você também como uma cantora de MPB?

Não. Eu sou uma cantora pop.

Você é apaixonada pelo Alceu Valença. De onde vem esse amor?

Eu amo muito. Minha mãe que colocava a música “Anunciação”, que é meu mantra quando estou muito “carregada”. Eu coloco e escuto. Minha mãe colocava para a gente os vinis de Alceu Valença. Eu já fui a um show dele no nordeste, eu era bem pequenininha. Eu amo muito.

O sucesso logo no primeiro disco foi libertador ou desesperador?

Menino, acho que pra mim foi um mix de tudo, porque não estava esperando nada. Era uma coisa que queria que fosse reconhecida e aprovada, mas não sabia que seria estrondoso assim. O que me deixa mais feliz é que continuei sendo a mesma pessoa que sempre fui e tendo os valores que eu tenho.

Quanto tinha de você nesse disco?

100% de Pabllo Vittar. Em tudo o que eu faço vai ter um pouco de mim. O álbum "Vai Passar Mal" foi o que mais compus do que nesse segundo disco. Então, acho que tem mais de mim como compositora.

No "Não Para Não" você misturou ritmos brasileiros com música eletrônica. É uma pitada para o mercado estrangeiro, como um diferencial?

É porque sempre fui muito fã de música eletrônica. Sempre vou colocando influências e musicalidades que gosto nos meus trabalhos. No caso desse meu segundo álbum é meio que uma pista do que vai vir no próximo. No meu terceiro álbum de estúdio. Já estamos a mil pensando em várias coisas.

Você teve medo de ficar um pouco estranho?

Se escutar e falar ‘amei’, eu vou lançar. Acho que é isso o que os meus fãs gostam na minha música, porque sou eu.

Trabalhar com gêneros que você já conhece te deixa mais segura para cantar?

Acho que sim, nunca tinha parado para pensar nisso. Eu amo cantar de tudo, desde criança.

Você já consegue perceber a sua influência na música pop brasileira e nas outras cantoras drag que vem surgindo no Brasil?

Sim. Eu fico muito feliz, porque é isso o que quero. A musicalidade brasileira exaltada em todos os seus gêneros. Eu amo muito que as pessoas continuem fazendo isso, porque é muito legal.

Qual você acha que é o segredo para você atingir vários públicos?

Acho que tendo personalidade e trabalhando com verdade. Quando você trabalha qualquer área da sua vida, não importa qual seja, e você coloca verdade naquilo, não tem como dar errado.

É diferente gravar um disco sabendo que ele vai existir no físico?

Sim. Você quer se seja perfect. A gente gravou em Los Angeles e eu saia de lá ‘caralho’.

Até agora qual o momento que você acha que foi o mais marcante da sua carreira?

Acho que ter lançado meu segundo álbum de estúdio e ter batido recordes com ele. I’m prepared, honey. Pode vir.

Você é uma pessoa que liga para números?

Não ligo muito para números não. São só números. O importante é o que a gente faz de relevante para a sociedade e para as outras coisas. Acho que o que eu fiz de relevante foi entrar na casa das pessoas para falar de preconceito, para falar de coisas que precisam ser faladas no momento em que a gente vive hoje, isso é muito importante. Eu sempre faço meu papel e falo para as pessoas ‘façam o seu’. Para a gente poder caminhar todo mundo junto, né?