MÔNICA SALMASO

UNIVERSO POÉTICO CAIPIRA

A cantora une talento e trabalho para se firmar entre as eternas da música popular brasileira

Entrevista publicada na revista Latina em novembro de 2017

Mônica Salmaso poderia (e deveria) ser uma das cantoras mais populares do Brasil. Desde sua estreia fonográfica, em 1995, com o disco “Afro-sambas”, a intérprete vem modulando o repertório popular com sofisticação erudita, aliando a técnica do canto à emoção e unindo disciplina e talento.

Aos 46 anos, mais de 20 dedicados à música, Mônica tem 11 discos lançados, e passeou, com autoridade, por composições de Chico Buarque ("Noites de Gala" - 2007), Guinga e Paulo César Pinheiro ("Corpo de Baile" – 2014), além dos afros-sambas, de Baden Powell e Vinícius de Moraes. Prêmios como o da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e o troféu de melhor cantora de MPB, na 23ª edição do Prêmio da Música Brasileira, são alguns dos reconhecimentos da crítica.

É com essa experiência que a paulista entra no universo sertanejo, com o álbum "Caipira", lançado em 2017. O disco chega como um clássico e coloca em cena o som ruralista e pouco desbravado dos interiores do Brasil. Ao lado de músicos como Teco Cardoso, Neymar Dias, Nailor Proveta, Toninho Ferragutti e André Mehmari – a cantora apresenta 14 canções e uma viagem às origens brasileira.

Em entrevista, Mônica contou da sua aproximação com o mundo caipira, o processo de gravação do disco e sua relação com a profissão de cantora.

A primeira pergunta era como uma cantora urbana, nascida e criada em São Paulo, se aproximou do universo caipira. Mas olhando para sua casa é possível ver a aproximação com o tema.

Eu fui me acaipirando com o tempo. Sempre morei no Jardins, perto da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, onde é a maior bagunça e tem muito trânsito. O Teco Cardoso, meu marido, morava em Moema, um lugar em que passa avião toda hora. Acabei mudando para cá, na Aclimação, onde já existe algum silêncio. Depois, compramos uma casa no interior. Aí foi que o bicho pegou.

Teve contato mais próximo com a natureza?

Ver as galinhas pela janela, ver crescer uma planta, ver a geada chegar e detonar tudo, ver o que sobra, ficar mais forte do que era antes. Você começa a entender que foi legal aquela geada, foi chata na hora, acabou com a flor que amava, mas depois, passado um ano, uma que estava mais fraquinha fica forte. O tempo de olhar para isso. As pessoas de lá com quem conversamos. Isso, para quem vem de uma cidade como São Paulo é revolucionário. Em São Paulo, quando chove é um tormento, tem trânsito, molha a roupa, estraga a bolsa, quebra farol, alaga as ruas. No interior, quando chove a grama fica tão feliz, as galinhas ficam um tempo, depois se escondem. Quando para a chuva, tem um cheiro próprio. São coisas tão simples e do cotidiano de quem vive longe da cidade grande.

Como você carrega as histórias para o canto?

Pelo interesse e pelas imagens. Cada vez que canto essas músicas sinto o cheiro, vejo a janela da minha casa, lembro das galinhas. Você está nisso. Quando você fala uma letra igual “Saracura Três Potes”, que tem umas imagens lindas de bicho, da lagoa, você começa a ver essas coisas. Não é mais só falar de um negócio que acha legal, mas não tinha uma relação próxima.

Você consegue apontar um exemplo?

A música “Bom Dia” nem caipira é. O Gilberto Gil e a Nana Caymmi fizeram para um festival e é uma música da qual me aproximei há anos, queria muito cantar, mas nunca tinha achado o lugar de gravar. Quando fomos gravar esse disco, nessa cidade onde temos uma casa e que tem duas fábricas, comecei a ver que o caipira de lá, um tanto vai para a roça e outro tanto vai para fábrica. O amanhecer tem o mesmo peso, a natureza acontece do mesmo jeito, mas a realidade é que alguns vão para a fábrica. Daí essa música passou a caber, não porque alguém me falou, mas porque senti. Aquela pessoa da letra, que acorda para falar que está na hora de trabalhar e se despede do marido, não mora em São Paulo, para mim, ela mora no interior.

É uma visão diferente do Caipira...

Acho bonito falar disso também, senão fica aquele negócio: índio na oca, caipira na roça. Fica uma coisa meio caricata e na verdade existe trânsito, existe caipira que mora na cidade de São Paulo.

E com a música caipira como foi o encontro?

Surgiu em 2002 quando ganhei um projeto do SESC São Paulo que, naquela época, produzia muitas coisas, tinha shows com cenário e figurino. Aí, me convidaram para fazer um projeto especial. Nunca tinha produzido nada, estava começando a fazer as minhas coisas e pensei no “Ponto Incomum”. Foram dois anos de shows trimestrais, cada um focado em um assunto ou em um encontro. Fiz shows com a Banda Mantiqueira e o primeiro com o grupo Sujeito a Guincho foi nesse projeto. Teve uma apresentação com a Teresa Cristina, Cristina Buarque e o Grupo Semente voltada ao samba da Lapa. Um desses encontros chamava “Casa de Caboclo” e uma das pessoas com quem falei sobre esse show foi o Paulo Freire, que também tocou na apresentação. Contei que estava querendo fazer esse show, mas não entendia nada do assunto. O Paulo Freire chegou à minha casa com uma mala com CDs, fitas cassetes e vinis. De músicas tradicionais a novas, passando por raiz e antigas inéditas. Era um filtro da vida dele, em relação a isso que é enorme.

Na hora surgiu a ideia de fazer um disco com esse material?

Na hora entendi que esse material precisava ser olhado. Tinha ali uma coisa que fazemos com o samba, um olhar de estudo, de entender esse brasileiro que ri da sacanagem, da desgraça, que é criativo nas metáforas, que é inteligente, às vezes sem uma cultura escolar, mas que saca as coisas e disso tira uma sabedoria. Tudo isso existe no universo caipira do mesmo jeito. É engraçado que é um malandro também em algumas coisas, tem o humor, a sacanagem, a inteligência, as imagens poéticas e metafóricas, só que tem outro tempero.

É possível fazer um paralelo entre a música caipira e o samba?

Não é uma tese de mestrado, mas tem um paralelo. Como tem com o repentista do Nordeste. São pessoas que não nasceram no mesmo lugar. O brasileiro tem isso, essa mistura que o Darcy Ribeiro falou no livro “O Povo Brasileiro”. O tempero muda, mas o jeitão é o mesmo.

É igual à música do Caymmi, são canções que parece que sempre existiram

Qual é o tempero da música caipira?

Tem um universo lírico. A música talvez seja menos rebuscada que a poética, mas a poética tem histórias maravilhosas, você se atém mais à letra que à música. Agora, ela tem um poder de comunicação, para quem vem do trabalho igual ao do “Corpo de Baile”, que era o oposto nesse sentido, a composição do Guinga é hipersofisticada, quase erudita. Você cai em uma estrutura simples, igual a da “Alvoradinha”, mas com poder. É igual à música do Caymmi, são canções que parece que sempre existiram.

É simples em qual sentido? Porque ouvindo o disco ela parece tão sofisticada quanto o seu último trabalho.

Tecnicamente é mais simples a linguagem musical. A estrutura é mais simples. Tem menos harmonia, menos acordes. Os caminhos harmônicos são mais simples e a melodia tem menos saltos. Mas isso são significa que o que ela é capaz de expressar é menor do que uma outra música. Ao contrário, às vezes, é até mais profunda, pega lá no seu cromossoma e quando você vê, toma uma cacetada.

Foi o que aconteceu com você?

Exatamente. Sou de São Paulo, mas aquilo tem um poder de emocionar com o essencial. É como se fosse o essencial.

De alguma forma essa estrutura mais simples mexeu com seu canto. Você se sentiu mais solta?

Não sei, pode ser. Nunca pensei nisso. Mas o fato de ter menos dificuldade técnica pode ter dado um relaxamento. Imagino que se você vai cantar “Fim dos Tempos” do Guinga, tem tantos saltos, tanto treco que você tem que ficar atenta e não pode ratear que vai faltar. O disco “Afro-sambas” era assim também, as vozes masculinas e femininas, isso fazia virar um troço enorme, agudo e grave, estava no limite, não dava para ficar soltinha (risos). Pode ser que tenha ficado mais solta sim, mas não reparei, o prazer de cantar foi o mesmo.

Quando você canta você se preocupa com algo?

Não me preocupo, não é algo em que eu ainda pense. Quando pensava, só queria não errar. Nos primeiros trabalhos até o “Voadeira” a minha única preocupação era não fazer feio. Não errar a letra e a melodia e, se possível, não atrapalhar a música. Sabia que estava com uma matéria muito importante, com uma sorte de estar com músicos excepcionais, com altas carreiras estabelecidas e eu começando. Então minha única preocupação era fazer por merecer, inclusive no canto. Já faz um tempo que ganhei de presente de mim mesma o direito de me divertir fazendo. Claro que presto atenção, ouço a nota e percebo se errei, aí faço de novo, mas a tensão sumiu, virou mais o prazer.

"Caipira" começou a ser gestado há 15 anos. Queria entender como é seu tempo.

Na verdade, esse é meu tempo de interesse. Não trabalhei 15 anos no disco, como não fiquei 10 anos no anterior. O primeiro contato foi há 15 anos e nesse primeiro contato me apaixonei e pensei que tinha uma música que merecia ser vista. E ficou nisso. Depois que abriu esse canal, comecei a ouvir mais coisas em relação a esse universo. Montei playlists, comprei CDs, me aproximei do Rolando Boldrim. Quer dizer que aquele assunto passou a existir e passei a me interessar mais. Eu já sabia que ia fazer o meu caipira. Tenho um pouco disso, deixo os assuntos morando à minha volta. Nisso começo a viajar e a trazer as coisas para ficar perto. É um interesse genuíno. Não é um interesse de interesse, é do coração.

Foi depois de ouvir a música “Caipira” do Breno Ruiz e Paulo César Pinheiro que você decidiu gravar o disco. Como funciona esse momento de decisão?

É aquela história: o assunto existe, você está aberto para ele. Aí veio o Rafael Alterio, de quem também gravei “Primeira Estrela de Prata”, me mandou um CD e falou que eu tinha que escutar aquela música. Era ele cantando e o Breno Ruiz no piano. Quando escutei, falei: ‘isso é muito sério’. A música anuncia: 'eu sou caipira'. Não é que ouvi e na hora seguinte resolvi fazer o disco, mas essa música botou o projeto na frente da fila.

Não dava pra fazer um disco de raiz, não sou uma cantora de raiz

Como você chegou nessa formação para o disco: Teco Cardoso, Neymar Dias, Nailor Proveta e Toninho Ferragutti?

É meu quarteto fantástico (risos). Com o Teco, que também é o produtor do disco, chegamos a esses nomes. O Neymar, Toninho e Proveta são pessoas que são do interior ou têm uma relação com essa música e, ao mesmo tempo, têm uma capacidade musical muito ampla, do jazz à música brasileira contemporânea, erudito, tudo. Estudaram, sabem muito. Eles teriam, na nossa ideia inicial e acho que foi o que aconteceu, a medida de ampliação, que era possível sem quebrar a estrutura musical caipira. Não dava para fazer um disco de raiz, não sou uma cantora de raiz, adoraria ser, mas não sou. Ia ficar fraco. Se montasse um grupo de raiz, a coisa mais fraca do disco ia ser eu. Precisava de um negócio que fosse o que sou, que tem um olhar sobre isso, que respeita e quer que isso esteja presente como é, mas ao mesmo tempo de uma forma ampliada, diversa, mais livre.

Por que um disco com poucos músicos?

A música pedia mais espaço para a letra aparecer. Se você super-rechearsse, ficaria pesado e afundaria. Também estávamos vindo de um trabalho que envolveu muita gente, teve cordas, arranjador e achava que era importante o contraponto. Se tentasse outro trabalho grande ia ser o segundo, seria legal criar o contraponto.

Como foram criados os arranjos?

Vínhamos aqui em casa ensaiar e, às vezes, dividíamos funções. O arranjo mais fechado do disco é o “Feriado na Roça”, que o Toninho fez e entregou a partitura para os músicos. Para o Neymar, delegamos “Estrela de Prata”, porque ele tem um trabalho lindo de transcrições de peças de Bach para a viola caipira, que é sensacional, e o Teco falou que a segunda parte da música tem um caminho da música barroca. O Proveta também pensou em casa as frases, as introduções, coisas que têm de voz do “Açude Verde”, “Água da minha Sede”, “Bom dia”. Então foi uma coisa meio trazida, meio dividida, meio junto.

Qual a sua participação nesse processo dos arranjos?

Entro primeiro na ideia inicial, que é nas escolhas das músicas e dos músicos. Depois, como ensaiamos juntos e criamos comigo cantando, isso acaba direcionando a música. Não é que o cara traz um negócio feito de fora, estamos fazendo juntos. Dou um pitaco aqui, uma ideia ali. Não vou falar: 'faz aquele acorde' que não tenho capacidade para isso, mas vou falar: 'esse acorde é lindo, pelo amor de Deus, não esquece'. Posso falar onde pode ser mais leve. Eu opino, é um trabalho feito na presença e não sob encomenda.

Tem a vantagem de conhecer bem esses músicos também, né?

Tem isso também. Nos conhecemos há muitos anos, são pessoas da pesada, mas são amigos. Faz muito tempo que trabalhamos juntos, isso cria uma fluência, uma flexibilidade. Você sabe, já foi feito, é mais fácil. Talvez se convidasse músicos com quem nunca tenha trabalhado poderia ser mais difícil.

Como surgiu a ideia de convidar o Rolando Boldrin?

Isso foi um desejo para o disco. Aconteceu uma coisa bonitinha, fui gravar o programa do Boldrin (Sr. Brasil) com Paulo Freire, faz uns anos já, e entreguei para ele o DVD do “Noites de Galã” com o Pau Brasil e ele achou isso superlegal. Entendeu que sou do grupo Pau Brasil, acho que até hoje ele pensa isso (risos). Ele resolveu colocar o piano pela primeira vez no programa, naquele cenário milimétrico lindo, brasileiro, era estranho, mas ele colocou e convidou o Nelson Ayres, o Teco e eu porque tínhamos gravado o “Promessa de Violeira”, do “Alma Lírica”. Fizemos o Sr. Brasil, ele cantou comigo. Logo depois, teve um programa especial de 10 anos dele na Cultura, que foi gravado na Sala São Paulo. O bonitinho perguntou se a gente, o Pau Brasil, topava fazer a música tema do programa. Ele falou que ia trazer a partitura, pediu meu endereço porque ia mandar. Num domingo, depois do Prêmio da Música Brasileira, quando ganhei um monte de prêmios com o “Corpo de Baile”, cantei uma coisa bonita, uma espécie de pot-pourri de coisas do “Brasileirinho”, um disco lindo da Bethânia. Fiz com o Jackson Antunes, um puta troço bonito. No sábado, ia aparecer o Prêmio na TV, como ia tocar, gravei para ver depois. No domingo de manhã, avisei todo mundo, liguei e putz: cortaram a nossa participação. Passou todo mundo e só cortaram a minha parte. Quando acabou, aquela sensação horrível, sempre no braço, quando tem uma chance, não rola. Estamos tristes, aí toca o interfone: “o seu Rolando está aqui em baixo querendo entregar um negócio”. Eu falei, “pelo amor de Deus manda ele entrar”. Chega o Boldrin, que nunca tinha vindo aqui, fomos tomar café e ele contou histórias lindas. Pronto, acabou. Ele é espírita, eu não sou nada, mas acho interessante, têm umas pessoas que têm o poder de transformação. Ele é isso. Falei que ele parecia um passarinho, estávamos aqui chateados e ele veio e coloriu tudo.

Ainda gosto de disco, não de coletânea, nem de playlist, gosto de ouvir na ordem porque tem um sentido

Como foi a seleção do repertório?

Sempre o mais difícil do disco é fechar o repertório. A única vez que isso não doeu foi no “Afro-sambas”, porque não tinha o que escolher. Todas as outras vezes a agonia de excluir é grande. Você nunca escolhe 14 músicas, escolhe 30. A primeira pesquisa tinha mais de 200 músicas. O disco tem os pilares, aquelas músicas que você não discute e tem certeza que vão estar lá. Isso serve para direcionar o trabalho.

Quais foram os pilares do “Caipira”?

“Sonora Garoa” sabia, desde o início, porque ela tem essa coisa de trazer para a cidade. “Caipira”, óbvio. “Açude Verde” já queria e sabia que, apesar de ela ser uma coisa mais nordestina do que do interior, tem essa imagem desse homem bruto falando uma declaração de amor que fica tão leve, do bruto para o leve, essa é a mão do roceiro. “A Velha”, “Estrela de Prata”, “Alvoradinha”. Já tinha pilar para burro.

Como essas músicas guiam o disco?

Você começa a não olhar mais para o que você quer. Isso aprendi com a experiência dos outros discos, me deu essa percepção. Chega uma hora em que você tem que sair da frente, do foco e pensar no disco que você está fazendo e não mais no que você quer. Não adianta. O “Leilão” é uma música que tem uma tristeza, uma densidade muito grande. Não dá para fazer um disco e colocar cinco como essa. Primeiro, você vai sobrecarregar a pessoa que está ouvindo e a música que vem depois precisa ter uma coisa, ela precisa sair daquilo, mas não pode sair esquizofrênica. Como vão ser essas passagens. O que precisa está aqui para valorizar essa e a pessoa tem condição de escutar e ter atenção para a próxima. Nem sei se as coisas funcionam assim, mas é o que acho, como ouvinte, o que queria ouvir.

Quando você está gravando já pensa na ordem do disco?

Em algum momento isso começa a entrar. Na gravação não sabíamos a ordem das músicas, mas sabíamos uma gama de possibilidades de cores. “Alvorada” tem uma coisa meio forte, porrada de clima. Então, essa é a música do clima. Você começa a pontuar e fica mais fácil de juntar. Se você fizer a opção só música a música, corre o risco de não ter um bom gráfico para desenhar o disco.

Essa sempre foi uma preocupação sua, desde o ‘Trampolim”, de ter discos concisos?

São álbuns que gosto de ouvir. Ainda gosto de disco, não de coletânea, nem de playlist, gosto de ouvir na ordem porque tem um sentido. Ainda sinto falta do CD ter a pausa que o vinil tinha. Essa pausa criava uma parada, um recomeço, um remeio e um meio fim. Isso era legal, porque você tem um tempo. Você precisava de um tempinho para virar o disco. Isso é bom.

O “Caipira” poderia virar vinil?

Nunca fiz vinil. É caro fazer e sinceramente não sei se vale a pena. Se vai vender.

Poderia ter pedido para o Chico Buarque, para o Edu Lobo, eu os conheço. Até deles tenho medo de pedir. Tenho pavor de um cara desses me fazer uma música e eu não gostar

Nesse trabalho você interpretou criações de compositores de diferentes gerações. Foi uma preocupação?

Não foi intencional, fiz isso no “Iaiá” também. Mas nunca foi, para mim, uma preocupação. As músicas, para mim, têm peso igual e sempre tiveram. Elas moram no mesmo lugar, não tem uma tabela com a coluna dos novos, a dos velhos, a das regravações, a das inéditas. Não tem isso, nunca teve e nunca terá. Existem as colunas da emoção, das cores. Mas nesse calhou de ter isso e não só de idades diferentes, como também regiões.

O Breno Ruiz é um compositor novo e tocou com você na estreia da turnê. Você se aproximou da música dele...

O Breno, assim como o Roque Ferreira e o Guinga, tem o conhecimento da música que ele absorveu, mas o que devolve desse conhecimento vem com assinatura própria. Isso é uma coisa descontrolada. É um troço que tem gente que tem e gente que não tem. É uma absorção daquilo que ouviu e conhece que é no poro. Quando ele cria vem com essa particularidade. O Breno é aquele cara que já nasceu velho, compõe modinha, choro e quando você ouve vem um piano brasileiro da Chiquinha Gonzaga, uma herança, mas não é cópia. O Roque Ferreira é assim. Quanto mais ouço, entendo o que ele é, porque ouvimos mais dele o samba, mas ele me mandou um CD com coisas que ele compõe com samba-canção que você ouve o Dick Farney.

Como foi encaixar no disco autores da MPB “clássica” que, a princípio, não teriam muita relação com o tema, como Cartola, Roque Ferreira, Gilberto Gil e Nana Caymmi?

Não tem esse critério. Passa só exclusivamente pela música fazer sentido. Não gravei porque é uma música da Nana Caymmi, mas adoro saber que é dela. Como não gravei porque era o Cartola, mas adoro ter ganho da Teresa Cristina essa música dele. Claro que adoro que apareceu uma música deles, mas não falei que tinha que ter uma música do Gil, essas músicas cabem para mim nesse disco e fico feliz por elas delas terem os compositores que têm.

Li que não sabia o sucesso da “Água da minha sede”. Então ela não entrou para ser o hit do disco?

São 14 músicas que cabem dentro de um disco, 15 já fica mais caro. Então são escolhas muito importantes, 14 que para entrar alguém, vai ter que sair alguém que gosto muito. Nunca nem consegui pedir música para compositor. Poderia ter pedido para o Chico Buarque, para o Edu Lobo, eu os conheço. Tenho pavor de um cara desses me fazer uma música e eu não gostar. O caso da “Água da Minha Sede” eu só acho curioso. Na verdade, o que ouvi com a Roberta Sá não é tão distante do que fiz. Tem um maracatu no dela, no meu tem um samba. O que é curioso para a maioria das pessoas é que ela nasceu ouvindo Zeca Pagodinho que é um sambão e para mim nasceu ao contrário.

Você não gravaria uma música só porque é do Chico Buarque e foi feita para você?

Nunca. Primeiro porque ia ficar numa saia justa. Eu não vou tirar uma música que amo para botar uma outra porque pedi. Não sou eu, é o disco, se não couber não vai entrar. Vai ficar chato, é uma situação horrorosa. Também não tem necessidade, tem tanta música, sobra, nunca falta.

O meu caipira é um afeto com a liberdade que acho que me cabe e com o respeito

Você falou que é um disco com o seu caipira. Que caipira é esse?

É um caipira de quem não é caipira, mas que tem interesse genuíno, respeito, curiosidade e, por ser brasileira, se reconhece um pedaço nele. Um caipira que tem um olhar de fora, panorâmico, assim como ver o nordestino e o sambista do morro. Ver tudo com certa distância, mas, ao mesmo tempo, fazendo parte. Sou apaixonada pelo “Povo Brasileiro” de Darcy Ribeiro. Sem nenhuma pretensão acadêmica mesmo, tenho um afeto sobre isso. O meu caipira é um afeto com a liberdade que acho que me cabe e com o respeito.

Seria um olhar com vantagens e desvantagens?

É uma posição, por um lado, não privilegiada, por não estar ali. Por outro, é privilegiada por poder ver esses Brasis no ponto em que eles se encontram. Essa é a vantagem, se tem alguma, de morar em uma metrópole, você pode reconhecer, olhar com um passo para trás e achar o paralelo.

Você teve algum medo desse caipira não ser compreendido?

Na minha expectativa, no meu medo, achei que geraria muita gente falando que isso não era caipira. Estou impressionada. De algum modo, tenho me feito entender como uma pessoa que pode fazer isso, já não tem: ‘quem é essa e o que pretende?’. Acho que a reverberação que esse universo bateu em mim está batendo nas outras pessoas também e, talvez até, principalmente, nesse momento honroso em que estamos de distopia. A cultura é o nosso remédio mais potente e, como brasileira, acho que deveria vir primeiro a educação, que deveria ser o pilar principal, mas não é nunca.

Qual retorno você tem do trabalho?

É como se as pessoas estivessem tomando um remédio. E entendo, porque para mim isso também é assim. Vamos precisar voltar a nos gostar como uma unidade, para poder se defender, para poder recriar os nossos desejos no País. Antes, era muito mais fácil quando você tinha o bem e o mal, fácil de você se posicionar, de falar, de entender. Agora, não é assim e isso nos coloca em uma vulnerabilidade de criança. Nesse sentido, acho que o Brasil, por ter uma cultura tão forte, rica e distribuída em todo País, é assim em todo canto, tem essa marca da mistura que nós somos e gerou uma cultura própria, que acho que é o nosso maior remédio.

O que você aprendeu entrando nesse universo caipira?

Que o Brasil é diferente e igual ao mesmo tempo. Isso é muito curioso. Você vê nas letras as características do cara que é religioso, pois o caipira em geral tem uma coisa mais católica, agora mais evangélica, mas tem uma religião, uma fé, e, em paralelo a essa fé, tem um humor que sacaneia o outro, ele deixa no ar, joga uma coisa que pode ser uma sacanagem ou não e acontece essa capacidade criativa. A língua portuguesa de Portugal não faz isso. O cara sempre dá um jeito de fazer uma metáfora de uma coisa do cotidiano. No samba isso está cheio. Moreira da Silva, com qualquer letra dele você cai no chão de rir, ele chama o prato de arroz e feijão de Maracanã. É genial. No caipira, também tem isso, ele vai achar uma metáfora engraçada, divertida ou poética da vida dele. O Brasil tem tamanho para muitos países, na Europa, um do lado do outro, não tem essa possibilidade. Não é assim, isso é da mistura dos povos que deu aqui. Só pode ser. Acho curioso.

Como foi o processo de gravação?

Tentei gravar ao vivo o máximo possível. No “Açude Verde”, como gravamos sem percussão, porque ia colocar depois, cantei e toquei tambor junto, mas isso não é legal, quando você sobe a voz, sobe o tambor, aí desce o tambor, a voz fica alta. Então gravei junto à base, depois regravei a voz em cima para o excesso e depois o tambor, tudo foi feito o mais ao vivo possível, porque acho que isso dá para fazer assim porque você está mais feliz, relaxada se dando o direito. Estou ficando mais velha, tenho mais prazer, tenho mais relaxamento de fazer.

Teve alguma coisa diferente no processo do “Caipira”?

Na mixagem, foi a primeira vez que pedi a voz um pingo mais à frente do que eu geralmente gosto. Acho que as letras são o ponto mais alto e importante. Não que a música não seja, mas é no texto que está a maior riqueza dessa canção. A música é o veículo do texto nesse caso, não é assim sempre. Se ele não for percebido vai empobrecer. Tem nomes de passarinhos que você nunca ouviu, um monte de palavras que precisam até estar mais claras para você falar: ‘hã! Não conheço, o que é isso?’.

Ser cantora era ser um ET e não sabia como virar aquilo. Era tão impossível como ser jogador de futebol

Como você planejou sua carreira?

Nunca planejei. O que paga a minha vida é o meu trabalho, não sou uma arquimilionária que fala que vai fazer o que quiser, do jeito que quiser e na hora que quiser. Nunca fui, vivo do meu trabalho. Desde o início construí um trabalho, falando sins e nãos. A única coisa que sempre soube eram os nãos. Sei ainda hoje. E não era teórico. Quando estava começando me chamaram para fazer uma banda de reggae. Podia fazer aquilo, mas olhava e falava não vou fazer. Nada contra. Alguém falava você tem que cantar em tal programa de TV. Dá um negócio na minha barriga e é não. Os sins ao contrário vão se fazendo. A estrada do sim vai se desenhando. Esse é o meu jeito de fazer, não é o único, talvez nem o melhor, é só o meu jeito. Assim eu sou, assim fiz, faço e farei.

Esse jeito virou hoje uma referência para outras cantoras...

Isso gerou uma carreira, hoje já dá para ver. A minha impressão é de que, quando era nova, naquele momento era o início dos selos pequenos, não se falava em música independente. Cantor era necessariamente alguém contratado por uma multinacional, que aparecia no “Fantástico” e fazia show no Palace, isso era cantor. Ou então cantava à noite no bar. Eu não frequentava barzinho então nem isso sabia. Por isso, ser cantora era ser um ET e não sabia como virar aquilo. Era tão impossível como ser jogador de futebol. Tem três carinhas supermilionários e famosos e sei lá quantos mil que morreram na praia. Era essa a imagem que se tinha de cantora. Existe música independente, existe selo pequeno, as multinacionais viraram meleca total, uma confusão, um fim de feira, tentando fazer de qualquer jeito e com o dinheiro deles o nome da vez, que vai ter que sustentar uma carreira depois sabe lá Deus como, porque ele é injetado com anabolizantes e depois o soltam. Muitos desaparecem. Quem está começando, acho que pode olhar para a minha carreira como uma saída de alívio diante dessa zona. Acho legal, no final das contas vivo do que faço. É uma carreira feita desse jeito. É uma solução. Outro dia a Tati Parra falou: ‘a gente olha para você e nem precisa de terapia’. Eu faço terapia há 20 anos (risos).

Quando a imagem de cantora vira uma realidade?

Quando fui para uma carreira profissional, saí do colegial, o quadro já começou a virar. Conheci uma professora que era cantora e não estava na televisão e nem numa multinacional. Ela gravava jingles, estava começando a fazer o trabalho dela independente, palavra que não existia. Conheci o selo “Pau Brasil” que era pequeno e fazia discos lindos. Isso passou a ser possível.

Como você vê o mercado hoje?

Hoje, estamos em um momento esquisito, é um momento intermediário. É difícil de olhar e entender o que vamos produzir, que mídia será essa que vamos fazer. Vai morrer o CD? O que vai ter no lugar? Quando começou o CD teve uma época em que você escolhia o vinil ou o CD. Você ia na loja e escolhia se queria o “Circuladô de Fulô” em vinil ou em CD. Foi uma passagem sem dor, porque você estava trocando um treco pelo outro, agora não sabemos o que será a outra coisa. A música não vai parar de existir, mas como vamos fazer o conteúdo e como vai ser vendido, nós não sabemos. Enquanto não vier uma coisa decente vou seguir fazendo CD. Até quando fecharem as fábricas. Ao mesmo tempo é um momento aberto. Daqui teremos que ir para algum lugar e acho que nesse sentido pode ser que seja uma via de pique.

Como foi na sua casa, na hora em que você falou que seria cantora?

Ia ser jornalista e fui fazer aquele purgatório do cursinho preparatório para o vestibular, dois meses depois queria morrer de tudo de ruim. Fui fazer aula de canto para aliviar e achei uma profissão. Cheguei em casa falei: ‘vou parar de gastar o dinheiro de vocês de forma inútil, não vou mais fazer cursinho. Vou ser cantora’. Sempre fui certinha e responsável. Nessa coisa de escolha de escola meus pais foram bem legais. Na hora, eles falaram está bom, mas o que significa isso. Falei não sei, mas parece que a melhor coisa é que está abrindo um curso de Música na Unicamp, uns amigos vão lá, pode ser, mas acho que bom é conhecer gente e fazer uns cursos localizados, de voz, instrumento. É meio estranho, mas parece que é isso.

Como você se sente quando ouve que deveria ter um público maior?

Acho que isso não me compete. Não tenho qualquer problema com o que faço ser conhecido. Confesso que não gostaria de ter uma vida de celebridade, acho chata. Acho que nem teria, em dois minutos desmonto tudo. A primeira pessoa que quisesse arrancar o meu cabelo, falava: ‘vamos tomar café lá em casa’. A pessoa ia me achar estranha e arrancar o cabelo de outra pessoa. Não tenho essa índole, esse jeito de funcionar, não sou assim. Sou do trabalho formiguinha. Mas isso não impede que mais pessoas conheçam o meu trabalho. Adoraria, só que não depende de mim. O que depende de mim eu faço. O alcance que isso gera é o alcance natural. Não vou fazer outra coisa, nem tenho como.

Você já teve uma experiência próxima desse sucesso...

Quando fiz o Festival da Globo, entendi o poder do anabolizante do sucesso. É esquisito, é fake, não é humanamente real e, além de tudo, é uma coisa que depende de uma estrutura de que não disponho. Entendo quando uma pessoa fala que deveria ser mais conhecida como um elogio. Agradeço. Se acontecer disso ampliar entendo que é natural e na escala humana que é o que conheço. Hoje, tenho muito mais público do que eu tinha há 10 anos e muito mais do que quando comecei. Ele vai sozinho, se fazendo de um jeito muito mais humano, sem ter uma injeção de coisas. Para chegar ao patamar que essa pessoa espera teria que sair para uma escala humana e ir com uma música na novela ou tocar em outros lugares. Eu não vejo isso no horizonte. Tenho problema com isso? Não. Teoricamente, se tirarem uma música do “Caipira” e botarem em uma novela, vou achar legal.

Em muitas críticas sobre o disco é normal encontrar quem diga que você é uma das melhores cantoras do Brasil. Você concorda?

Não dá para pensar nisso. Mas agradeço, obrigada. Dentro do fazer, tem hora que me sinto insegura, que não consigo nem pensar, no dia que não for assim eu paro. Mas não fico apavorada, tenho um nível de segurança do tempo de estrada, que se espera de qualquer pessoa que faz 20 anos a mesma coisa. Uma hora aprende. Tenho essa sensação, isso é muito bom e não tem nada que dê isso a não ser o próprio tempo.

Qual sua relação com o tempo?

Valorizo imensamente o tempo. Sempre tive uma responsabilidade em relação a isso. Talvez porque tive, no início da carreira, muita sorte de conhecer gente que já tinha muito tempo e que começou a trabalhar comigo e eu com eles. Pensava: ‘como vim parar aqui’. Tinha uma sensação de responsabilidade de que se bobeasse todo mundo ia descobrir que era maior bico, o que estava fazendo ali. Tinha que fazer por merecer aquilo. Não adianta você ser reconhecida internacionalmente com o primeiro disco, você não tem tempo de estrada, você está cru. É o tempo que faz do cru o cozido, se for no fogão a lenha, fica mais saboroso, no micro-ondas esquenta, mas fica mole. Isso é fato e é um belo fato. É um valor que talvez nesse mundo de hoje não seja tão entendido, mas acho um valor lindo. Sempre reconheci isso como um valor dos outros e gostei de sentir isso em mim.

Você se lembra do momento em que começou a sentir essa segurança?

Eu me lembro do dia que senti isso. Estava cantando com a Orquestra Popular de Câmara, no Supremo Musical (antiga casa de shows de São Paulo). Era sempre às quartas, nem sei por quanto tempo, a sensação é que foram 10 anos. Um dia sai do show, no carro indo para casa, na madrugada, sozinha, e senti uma satisfação de achar que já tinha um jeito de ser. Não é que era na opinião dos outros, mas para mim, estava fazendo uma coisa, com um grupo de pessoas e de um jeito que já podia chamar de meu. Não estava provando, não estava tentando, não estava me comparando. Estava no meu cantinho, fazendo o meu negócio e naquele momento deu um estalo, parece que é meu, meu jeito, eu encaixei. Lembro da sensação de alivio. Não preciso mais ficar naquela agonia que tinha. Dali para a frente é só acumulo disso.

Em que momento você ainda fica insegura?

Nesse trabalho, por exemplo, não sabia como ia chegar às pessoas. Não fico insegura de fazer, sabia que o disco era esse, ele foi sendo esse, durante toda essa etapa fiz as opções que quis, não faria ele diferente, está tudo certo com ele. Na hora que você vai mostrar é que você pensa: ‘o que será que vai acontecer? Como vão ler? Vai bater, vão vir contra?’ Isso tenho que é uma insegurança normal de todo mundo, gosto, é sadia. Vai ser muito estranho na hora em que não for assim. Faz o que quando não for assim?

Você já gravou uma música especialmente para novela?

Sim. Mas olha só que engraçado. O Marizinho Rocha (Globo), nunca tinha falado com ele, me ligou falando que a autora da novela “Sete Vidas” gostava muito de mim e queria muito que cantasse na novela dela e queria que fosse “Primeira manhã”, uma música linda do Alceu Valença. Achei bacana, perguntei como é que era, ele falou grava como você quiser, com quem você quiser. Ótimo. Esse é um caso de sim. Gravamos e foi para a novela. Mas tocou uma vez (risos), uma cena linda, videoclipe total, mas tocou uma vez.

Você iria ao programa do Faustão?

Depende de como. Fiz o Festival da Globo. Tive que brigar para vestir a minha roupa, para escolher a minha música. Porque eles queriam mandar. Isso é não. Ia ser mostrada pela primeira vez, tinha 20 anos, estava começando, e o negócio ia me mostrar para o Brasil inteiro de uma forma que talvez nunca mais pudesse chegar. E isso não poderia ser de um jeito que não correspondesse à realidade. Não me interessa aparecer se for com uma coisa que não tem nada a ver com o que sou. Me interessa se puder escolher a minha roupa, a minha música e os músicos. Se puder isso, vou fazer uma coisa que parece comigo. Mas se achar que tenho de vir de peruca, um decote e cantar um reggae, vai estragar o que estou fazendo, que para os outros é mínimo, nada, mas para mim é tudo.

Quais foram suas referências de artistas?

Quando comecei a cantar era a Zizi Possi, naqueles três discos dela “Sobre Todas as Coisas”, “Mais Simples” e “Valsa Brasileira”. Conhecia a Zizi de “Rosa Morena”, da TV. Quando ela gravou esses discos, lembro de ter chegado uma coisa. Primeiro, a voz dialogava com os instrumentos, percebia isso, a importância autoral dos instrumentos e o diálogo, não era uma crooner que cantava sobre o arranjo, isso achei muito legal. Depois, tinha uma coisa clássica de ser. Não era um punk total, não era modernão, nem era quebrando todas as barreiras. Era uma coisa assim, bota um vestido bonito, arruma o cabelo, faz uma maquiagem normal e canta. Isso é uma identidade e é isso que faço. Agora já estou mais saidinha com uma roupinha diferente, estou achando divertido, mas olha, aos 46 anos, nunca me identifiquei por dentro, não tinha um jeito tropicalista de ser. Acho legal, mas não é a minha. Não tenho uma coisa Björk. Adoro ela, acho o máximo, louca e maravilhosa, acho legal, mas não tem nada a ver comigo. O Ney Matogrosso, gostava do Secos e Molhados, sabia todas as músicas, aquele Ney performático. Um dia meu pai compra o “Pescador de Pérolas”. O Ney sem maquiagem cantando Villa Lobos, "A Lua Girou", "Melodia Sentimental", tinha Cartola. Ele foi precursor, a gente estava vindo dos anos 80, teclados, timbres de teclados, piano acústico nunca, cordas de verdade. De repente, esse show acústico, bateu direto. Achei lindo. São referências de um jeito de ser e não de imitar.

Dorival Caymmi e Chico Buarque são os seus pilares musicais?

Os compositores brasileiros que mais ouvi desde criança foram o Chico e o Dorival Caymmi. É uma coisa que tenho como formação mais que musical, é uma formação emocional. Ouvia tudo que estava acontecendo no Brasil através das músicas, principalmente do Chico, que era um cronista. E é muito rico e muito lindo. São os compositores que mais conheço e mais me sentia preparada para cantar. Um já foi, mas foi insuficiente, 14 músicas do Chico para cantar é uma tortura. Poderia fazer 17 discos. Sem problema nenhum, só com a minha formação eu nem estou contando as coisas novas.

Quem entrou nessa lista depois?

Depois vieram outras paixões. Teve uma época em que eu me interessei pelas cantoras do jazz. Mais do que isso, o meu primeiro interesse quando comecei a fazer aula de canto eram as cantoras de gospel, achava lindo. É lindo, não tem nada a ver comigo, mas é lindo. Aquelas coisas que elas fazem com a voz, o canto, a reza, o lamento, isso é muito lindo. Comprava todas as trilhas de filmes sobre os negros, tenho tudo – só para ouvir aquela cena na igreja que aparece uma negona maravilhosa e canta. E vem tudo, a mágoa, a tristeza, a resignação, o pedido para sair daquilo. É muito bom. Fui para a Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald, Diane Schuur, Alberta Hunter, pirei com elas. Também não uso nada disso, mas ouvi. Devo usar, mas não virei uma cantora de jazz. Tem a Maria João que é outro escândalo.