LEONORA WEISSMANN

ENTRE O SOM E A IMAGEM

Com disco que passeia pela música instrumental e a canção, Leonora  registra a nova geração de músicos mineiros

Entrevista publicada na revista Latina em maio de 2016

Berço do Clube da Esquina, movimento musical da década de 60 que revelou artistas como Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Ronaldo Bastos, entre outros, a cidade de Belo Horizonte vive novamente uma cena  inspiradora.

Jovens músicos voltaram a flertar com a MPB, e antenados ao som contemporâneo, estão traçando caminhos que apostam na diluição da fronteira entre o instrumental e a canção.

Boa parte dessa geração pode ser encontrada no disco “Adentro Floresta Afora”, primeiro álbum solo da cantora e artista plástica Leonora Weissmann. Com a produção e direção assinada por Rafael Martini, um dos principais nomes dessa nova safra, o projeto traça um panorama atual da capital mineira.

Para dentro da sua floresta, a artista levou os compositores mineiros Renato Motha, Fernando Brant, Kristoff Silva e Pablo Castro, Rafael Macedo, Rafael Martini, Alexandre Andrés, Bernardo Maranhão e Luiza Brina. Além de Hermeto Pascoal, uma referência mundial do instrumental.

Leonora também criou a arte do disco e o cenário dos shows, pensando no conjunto como obras de arte que agregam imagem e som. Aliás o nome “Adentro Floresta Afora”, é também o título de uma coleção de pinturas de Leonora, apresentadas em 2013 pela artista.

Para entender mais do disco e conhecer a nova geração instrumental, conversamos com a cantora e marido/produtor Rafael Martini.

Pensamos em um som que contasse com poucos músicos, mas que soasse como um grupo grande de instrumentistas

O CD “Adentro Floresta Afora” marca sua estreia na carreira solo. Como foi cantar sozinha?

Leonora Foi uma experiência nova. Com o grupo QuebraPedra, eu também cantava sozinha, era a cantora principal. Mas nesse trabalho tive que fazer escolhas e definir o repertório sozinha.

Foi um momento de se expor mais. Para você é tranquilo essa exposição maior?

L Fácil não é. Foi um aprendizado. Se não tivesse iniciado a carreira com os grupos não teria começado como cantora solo. Foi tudo um processo.

A produção do álbum, como foi pensada?

Rafael A sonoridade foi construída entre nós produtores, Rafael Macedo e eu (Rafael Martini), com a Leonora. Pensamos em um som que contasse com poucos músicos, mas que soasse como um grupo grande de instrumentistas. Tínhamos músicos multi–instrumentistas envolvidos, eu, por exemplo, toquei cinco instrumentos, o Rafael Macedo tocou dois ou três. Tivemos essa preocupação de ter um grupo restrito de músicos, mas que pudesse ter arranjos muitos diferentes.

O álbum anda entre o limite da canção e da música instrumental. Como você imaginou o disco?

L Queria fazer um disco que achasse agradável de ouvir. Isso é muito pessoal, por isso busquei dentro do meu gosto. Claro que foi difícil escolher, mas essa seleção foi muito ligada ao afeto e ao prazer que tinha em cantar.

A música instrumental e a canção são a base disso. Como foi produzir essas duas vertentes no mesmo projeto?

R Existe uma geração de artistas, no Brasil, em Minas Gerais especificamente, da qual a Leonora, os músicos que estão no disco e eu fazemos parte, que considera este limite entre o instrumental e a canção um pouco mais fluida. Gostamos muito dessa diluição da fronteira entre esses dois gêneros.

Na prática, como funcionou isso no CD?

R Muitas vezes, aplicamos pensamento instrumental na canção e vice-versa. Existem músicas do disco que são canções sem letras e foram tratadas como canção, compostas como canção, mas não têm letras. E existem canções que são tratadas como música instrumental, com arranjo mais variado e com muita ênfase na questão musical.

Para uma cantora é diferente interpretar instrumental e canção?

L É um pouco diferente. A canção tem uma letra para você interpretar e uma história pré-definida. Já na instrumental a relação é mais abstrata, não que ela não crie imagens, mas é um pouco mais livre. Tem um trabalhar a voz mais como um outro instrumento. Gosto muito dos dois cantos. Para mim o ideal é estar sempre misturando, cantando as duas coisas.

No CD, há canções de oito minutos, o que hoje em dia não é tão comum.

R Não passou pela produção do disco a preocupação com a questão comercial. A preocupação era bem focada na música. Respeitamos a duração que cada uma pedia.
L Com outros grupos já tinha esse hábito de cantar músicas maiores. Acabou surgindo naturalmente. Só depois que fui perceber que as músicas e os arranjos ficaram extensos. Radiofonicamente isso não é muito interessante. Infelizmente, porque acho que não deveria ser o parâmetro. Para falar a verdade, só percebi o tempo das músicas quando fui ver a minutagem para o encarte.

Como surgiu essa ideia de escolher dos mesmos compositores duas composições: uma canção e uma instrumental?

R Essa ideia surgiu da Leonora. O objetivo era fazer um songbook dessa geração que está a volta dela e que são compositores que têm essa particularidade de transitar entre o instrumental e a canção. Foi uma forma dos artistas mostrarem as duas faces do seu trabalho. Isso tem a ver com o próprio caminho dela, ela também já vem de uma experiência de grupo instrumental, mesmo sendo cantora.
L Também vem do fato de eu gostar de cantar e ouvir música instrumental e canção e conviver com esses compositores. Isso também acabou se transformando em um pensamento limitador para poder escolher o repertório. O Milton Nascimento faz muito isso de misturar instrumental e canção. Aproveitei esses compositores que gosto tanto e que trabalham nesses dois campos e usei isso de estratégia para fazer o disco.

Você acha que o álbum faz esse papel de songbook dessa nova geração de Belo Horizonte?

L Não deixa de ser um recorte. Mas ficou muita gente de fora com quem se Deus quiser ainda vou gravar.

O maior marco dessa geração é a volta com a música brasileira. A geração anterior veio do jazz e deixou a música nacional um pouco de lado

Como você chegou a esses compositores e a esses músicos que estão no disco?

L Foi muito através de amizade, estando no meio com o Rafael (Martini), que é músico e trabalha com isso prioritariamente, fui conhecendo e me apaixonando pelo trabalho deles. Alguns até me chamaram para cantar e aí você acaba ficando mais próxima da música deles. Mas não foi fácil.

Vocês veem o surgimento de movimento de músicos instrumentais aparecendo em Belo Horizonte, como o Clube da Esquina, por exemplo?

L Acho que acaba se formando isso naturalmente. Mesmo que não tenha essa intenção de criar um movimento, tem uma colaboração muito grande entre nós, uma admiração muito grande e acaba que um está sempre levando o outro, de alguma forma, para o seu trabalho.
R Acho que já tem um tempo que a cena da música instrumental em Belo Horizonte vem mudando um pouco. Ela sempre foi muito referencial aos músicos do Clube da Esquina. Hoje em dia, é claro que esse fato ainda é forte e é bom que seja mesmo, mas existem outras correntes surgindo, de 10 anos para cá. Uma geração que lança olhar para outros tipos de música e consegue englobar essas influências na música que está sendo feita agora.

Que cenário vocês encontram em Belo Horizonte para fazer música?

R Existe uma coisa aqui que é mais social que musical. A cidade não é nem grande nem pequena e os músicos convivem. Temos espaço de convivência, existe uma noção de compartilhamento da música. Há um super festival de música instrumental que traz expoente da música instrumental do mundo e do Brasil e, ao mesmo tempo, tem um compromisso grande com a cena local. As casas de espetáculos são pequenas, mas são comprometidas com a cena. No Rio de Janeiro, por exemplo, sinto os nichos mais delineados. Aqui em Belo Horizonte você me vê tocando com artistas que a princípio não teriam nada a ver comigo.

Vocês estão muito presentes nesta nova geração. O que eles enxergam de diferente nesta turma?

R O maior marco dessa geração é a volta com a música brasileira. A geração anterior veio do jazz e deixou a música nacional um pouco de lado. Agora, estamos com um olhar mais voltado para o Brasil e ao mesmo tempo para outros estilos que não têm nada a ver, como o eletrônico, o rock novo, isso tudo tem entrado no balaio de uma maneira mais total.
L São músicos que não estão preocupados em inovar. Eles estão ligados a referências muito ricas passadas sem deixar de experimentar. Essa geração também trabalha muito, buscam aprender, trocar e conhecer coisas novas e contemporâneas.

O que vocês estão escutando?

R Escuto aquela coisa de base de música instrumental brasileira, Heraldo do Monte, Hermeto Pascoal, Tom Jobim, Milton Nascimento. Jazz é uma coisa muito forte que escuto muito. Mas estou sempre procurando escutar a música do meu tempo, acho que é importante esta ligado nisso. Tenho interesse muito grande em rock novo, principalmente o que é feito em Nova Iorque, no Brooklin. Gosto de música eletrônica, Björk, e música erudita contemporânea do século XX, como Stravinsky.
L Estou ouvindo bastante Thiago Amud, Björk, Tatiana Parra e Pau Brasil (Villa Lobos Superstar).