JOANA QUEIROZ

OS VENTOS MUSICAIS

A clarinetista que representa a nova geração brasileira

Entrevista publicada na revista Latina em setembro de 2016

“Joana é uma musicista completa, toca maravilhosamente, compõe e arranja. Sua obra é nostálgica e futurista ao mesmo tempo. Ela não para de se aprofundar, quem acompanha sua carreira tem a oportunidade de testemunhar uma música em constante expansão.”

As palavras do guitarrista Bernardo Ramos servem para apresentar uma das mais importantes musicistas da nova geração brasileira. A carioca Joana Queiroz, que transita há mais de 10 anos entre diversos projetos, criou seu trabalho autoral de maneira livre e longe dos rótulos de erudito e popular.

Instrumentista, compositora e intérprete, a clarinetista passou mais de uma década na Itiberê Orquestra Família gravou com Hermeto Pascoal, tocou com Arrigo Barnabé e Mônica Salmaso e vem se tornando um dos pilares da nova cena instrumental do País.

A carreira do instrumentista é um pouco mais flexível do que a de um cantor. Como clarinetista, tenho mais oportunidade de participar de outros projetos que não são necessariamente da minha carreira autoral

Como você decidiu ser musicista?

Aos sete anos de idade comecei a tocar flauta doce, era uma coisa que já gostava muito. Depois, fui tocar em grupos de música barroca e renascentista, em um quarteto de flautas. Tive uma professora alemã, Gisela Dungs, que era um amor. Ela tocava piano e eu flauta doce, era um universo que me fascinava. Eu nem fazia tanta diferenciação entre canção e música instrumental, antiga ou contemporânea. Era um universo sonoro que me encantou e o segui.

Como descobriu a flauta doce?

Minha mãe é professora de uma escola com pedagogia Waldorf, um sistema alternativo de ensino que trabalha muito por meio da arte. Eu era um pouco mais velha e não pude fazer a formação, mas fazia as atividades complementares e acabei tendo aula com a Gisela, que me ensinou a tocar.

E com o clarinete, como foi seu contato?

Quando fiquei um pouco mais velha, tive vontade de tocar outro instrumento de sopro. Morava em Nova Friburgo, região serrana do Rio de Janeiro, um lugar que tem cultura de banda sinfônica. Entrei em uma banda e lá eles me sugeriram o clarinete, porque em uma banda sinfônica ele faz o mesmo papel dos violinos, tem muitos e sempre precisam de mais gente tocando. Além de ter o argumento do clarinete ser um instrumento difícil, depois para você trocar por outro é mais fácil. Aceitei, me apaixonei e não larguei mais.

Quando percebeu que viveria de música?

Quando tinha 18 anos, queria aproveitar a última oportunidade de passar por uma escola Waldorf e comecei a procurar possibilidades. Surgiu uma oportunidade de ir para uma cidadezinha do interior nos Estados Unidos. Tive aulas de música clássica e popular e, quando voltei, estava certa do que queria.

O que você fez para se profissionalizar?

Fiz uns cursos de verão em Ouro Preto, Brasília e Curitiba. Depois, passei em duas faculdades no Rio de Janeiro, me matriculei nas duas, achando que conseguiria (risos), mas acabei fazendo só um ano na Universidade Federal do Rio de Janeiro, porque depois entrei na Itiberê Orquestra Família.

A Itiberê Orquestra Família foi a grande escola da sua carreira?

Sim. Era muito intenso musicalmente, desafiador e um trabalho com o qual me identificava. Tinha tudo a ver com as coisas de que gostava, como Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal. Fiquei apaixonada pelo projeto e era uma coisa que demandava muita entrega.

Como foi essa experiência?

O Itiberê (Zwarg) tem um método de composição que ele chamava de “Corpo Presente”. Ele vai compondo e ensinando a melodia no mesmo momento, e vamos tirando de ouvido enquanto ele faz os arranjos, abre as vozez. Aprendendo na hora e decorando. É difícil, por isso ensaiávamos muito. Depois, cada um ainda aprendia a escrever sua parte para não esquecer. Mergulhei nesse processo por mais de 10 anos. Essa foi a grande escola e o divisor de águas da minha carreira. O Itiberê foi interessante porque, além de ser uma escola para a nossa relação com o instrumento, também foi uma escola no processo de composição. Aprendi sobre harmonia, abertura das vozes e noção de arranjo. Foi uma coisa bem global e rica, o que é uma coisa rara de se encontrar fora do mundo teórico.

E a Universidade?

Acabei saindo da faculdade. Achei que não tinha muito a ver com o que queria. O que encontrei na Universidade foi um sistema muito voltado para a música clássica. Normalmente, para o universo da orquestra sinfônica, o que já estava vendo que não era muito o meu caminho. Queria aprender a improvisar, tocar jazz, música popular e choro.

Como se constrói a carreira de instrumentista?

A carreira do instrumentista é um pouco mais flexível do que a de um cantor. Como instrumentista, tenho mais oportunidades de participar de outros projetos que não são necessariamente minha carreira autoral. Mas também tem o outro lado que é do operário que está sempre trabalhando, ensaiando, passando o som e carregando instrumento (risos).

Você tem projetos no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Belo Horizonte. Da onde vem essa alma nômade?

Faz parte da carreira, mas acho que sou um pouco mais que o normal (risos). No período que passei com o Itiberê, não podia viajar muito, porque não se interrompia os ensaios. Não tinha como ficar uma semana fora. Quando saí, acho que fui viajar para compensar o tempo que fiquei nesse trabalho. Também tem a questão de que o Rio de Janeiro não é um lugar muito fácil, principalmente para quem faz música instrumental. Se ficasse restrita só àquele ambiente da cidade, não conseguiria viver de música, não conseguiria fazer as coisas que mais gosto. Fui aproveitando as oportunidades que tive de me envolver com músicas com que tinha muita afinidade.

Quando você mexe com música, aquilo vira parte da sua vida. Fica na cabeça, você sem querer está assobiando melodias, ainda mais quando você trabalha com improvisação

Você participou da gravação de 12 faixas do disco "Mundo Verde Esperança" de Hermeto Pascoal. Como foi essa experiência?

Foi um marco na minha carreira. O Itiberê é baixista dele há mais de 30 anos e muito do que aprendemos na Orquestra vinha dele. O Hermeto foi ao primeiro show que fizemos, adorou e ficou bem próximo. Nesse tempo, aconteceu um evento maluco na minha vida, a minha mãe conheceu o Itiberê e casou com ele, o Hermeto tocou no casamento (risos). Passamos a ir a casa dele, ele compunha para nós. Imagina para uma pessoa de 20 anos descobrindo aquele universo todo. Foi genial. Aprendi muito, sou muito grata. Depois, teve a gravação do "Mundo Verde Esperança" e ele nos chamou para participar. Abriu o estúdio e acompanhamos as gravações, eu ia todo dia e passava o dia todo. Participei de quase todas as faixas. Foi uma fase bem marcante de aprendizagem e referência.

Você participou de apresentações com diferentes grupos na Argentina, Chile, Uruguai, Portugal, Espanha, França e Itália. Como é recebido um músico instrumental brasileiro?

Depende muito de em que contexto você está. Na Europa fiz coisas menores, eram situações mais informais, mas sempre tem um público muito interessado. Na Argentina e no Uruguai eram pessoas mais próximas desse universo, já muito fãs do Hermeto e do Itiberê, por exemplo.

Existe uma aproximação maior com a Argentina?

Sim. A Orquestra inteira participou de um mercado cultural em Salvador há muitos anos, e lá conhecemos o Leandro Quiroga, que é um produtor da Argentina que quis nos levar para lá. Tocamos em Buenos Aires, foi uma experiência muito legal. Já na primeira viagem, a Liliana Herrero, que é uma grande cantora de lá, deu uma canja no nosso show. Depois todo mundo foi ver Aca Seca, já foi uma descoberta musical enorme. Para fechar, fomos para Santa Fé conhecer Carlos Aguirre pessoalmente. Fomos nos encantando com a música deles e acabamos criando um laço muito grande com um grupo de pessoas que estavam interessadas em ter essa troca com a música instrumental brasileira.

     

Quando um artista te chama para um projeto, o que ele espera de você?

Tem vários aspectos que atraem, tem o timbre, a sonoridade, que as pessoas costumam comentar que é esse som aveludado do clarinete, um timbre que não é tão comum. Tem a versatilidade de poder improvisar que nem todo mundo tem, o lado de compositora e arranjadora, que para alguns projetos é bom. Acho que o que chama mais atenção é essa coisa versátil que pode somar, não só como instrumentista, mas também com essa ideia de concepção musical.

Como se criou o seu trabalho autoral?

São os mistérios da vida (risos). Quando você mexe com música, aquilo vira parte da sua vida. Fica na cabeça, você sem querer está assobiando melodias, ainda mais quando você trabalha com improvisação. É uma coisa natural, mas comigo foi engraçado que nem parei muito para pensar. Fui fazendo e era meio que uma necessidade. Mas, lembro da sensação de ver a coisa acontecer. Não sabia direito como funciona esse processo de uma ideia, um sentimento, uma sensação virar uma música. Acho que foi acontecendo quase como se fosse uma coisa que vinha de fora e eu estranhava.

Tem um efeito que pode ser até meio de cura. Você está olhando para uma questão, vivendo aquilo, pode ser doído, mas nem por isso é ruim

Em que momento a composição entrou na sua vida?

Foi uma coisa de necessidade de expressão. Não foi uma resolução, não componho todo dia para praticar. Era estar com uma coisa que queria expressar e não sabia de que outra maneira. Usava aquela ferramenta que estava próxima de mim, a música. Fui experimentando e as coisas foram se desenvolvendo e ainda estão nesse processo. Começou cedo, aos 15 anos lembro que sentei com uma amiga e fiz uma música. Depois, o lado harmônico ficou mais consciente e foi uma ferramenta que me impulsionou a compor de verdade. Acho que faz parte do dia a dia do estudo da prática musical, natural.

É tranquilo compor ou doloroso o processo?

Costuma ser tranquilo e fluir naturalmente, mas às vezes você quer expressar uma coisa doída, aí você se joga naquele sentimento e faz alguma coisa com aquilo. Mas, mesmo assim, é prazeroso, tem um efeito que pode ser até meio de cura. Você está olhando para uma questão, vivendo aquilo, pode ser doído, mas nem por isso é ruim.

Qual é sua relação com o canto?

Como as pessoas sabem que canto, quando vou tocar me chamam para cantar. É como se fosse um outro instrumento, que às vezes é acessado. É uma coisa que gosto muito de fazer, mas não é o meu primeiro instrumento. Queria desenvolver mais isso. Sempre que posso, uso, não necessariamente dentro da canção, às vezes como textura ou "cama" para a música.

E a palavra?

Tenho mais facilidade com o universo da música instrumental, com os sons e timbres do que com a palavra. Até canção eu demoro a entender, tenho que ouvir várias vezes a letra para entender, porque sempre o que bate primeiro é a melodia e a harmonia, o que aquela música me diz mesmo sem a palavra, o astral e a mensagem independente da letra. Até hoje, só fiz uma letra que está no meu primeiro disco e se chama “Mais Perto”. As pessoas adoraram, mas ficou nisso. Tem uma coisa que gosto muito de fazer que é musicar letras. Gosto muito.

Como é saber que sua música chegou ao Japão?

Acho incrível. No Brasil, como estamos próximos, o que chega primeiro não é a música e sim a pessoa e você perde um pouco o olhar para o trabalho. O que acontece lá é uma conexão direta com a música, eles me conhecem pelo que ouvem. É genial ter esse tipo de contato, saber que entendem mais da minha trajetória musical e têm uma escuta mais atenciosa e mais aberta. Agora, estou na torcida para fazer um show do “Gesto” por lá.