GAL COSTA

MEU NOME (CONTINUA SENDO) GAL

Em "Estratosférica", Gal Costa trava diálogo com a nova geração de compositores da MPB, aumenta a fase experimental, provando que ainda tem ousadia para ser a voz mais influente do Brasil

Entrevista publicada na revista Latina em julho de 2015

Maria da Graça Costa Penna Burgos é mais do que uma cantora. Gal Costa, como ficou universalmente conhecida, é uma escola de canto. Entre suas discípulas estão artistas como Marisa Monte, Roberta Sá, Tulipa Ruiz, entre outras, que têm sua voz como parâmetro ou influência.

Com o passado reverenciado por diversas gerações, a representante feminina do Tropicalismo acaba de lançar o álbum "Estratosférica", disco que busca inspiração no presente para celebrar 50 anos de carreira e 70 de vida.

“Poderia estar acomodada cantando meus clássicos, mas não é isso que quero e nunca foi isso que busquei. Tenho uma ligação muito grande com o gostar do que é novo. Minha carreira é pautada por correr riscos e por dar saltos. Esse é o meu jeito de ser”, define-se Gal.

Apostando em canções inéditas, arranjos modernos e jovens compositores, o álbum mantém a retomada da fase mais ousada da carreira, que iniciou, em 2011, com o disco "Recanto", produzido por Caetano e Moreno Veloso, e que marcou a aproximação da intéprete com a música eletrônica.

“Estratosférica é um passo depois dessa revolução. É mais ameno nesse sentido, mais amigável, mais abrangente, mais acolhedor. É um disco para Gal estar na vida cotidiana dos brasileiros: no rádio, na novela, no namoro, nas separações, na pista de dança, na alegria e na tristeza. Gal tem esse tamanho todo, pode revolucionar a música brasileira e pode tocar em estações de rádio populares”, explica o jornalista Marcus Preto, responsável pela direção artística e escolha do repertório.

Gal retomou definitivamente o posto de cantora mais influente da história da música popular brasileira. Na entrevista, a artista falou sobre a produção do novo disco, a amizade com Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia, e a eterna imagem de musa do tropicalismo.

A minha voz é o espelho da minha alma

Se o álbum é o retrato do momento do artista, comemorando 50 anos de carreira, em que momento você está?

Esse disco é uma consequência do álbum “Recanto”, que foi uma ruptura na minha carreira, como muitas outras que aconteceram. Minha história musical é pautada por esses momentos de quebra, o que acho saudável e muito bom para o artista.

O disco começa com a música “Sem Medo e Sem Esperança”, uma letra do poeta Antonio Cicero criada especialmente para você. É um recado que você dá para quem vai ouvir o disco?

Antonio Cicero fez uma canção para esse momento que estou vivendo. Fiz questão de abrir o disco com ela porque a letra diz tudo o que gostaria de falar. A canção mostra o meu momento, de um jeito belíssimo e com uma letra incrível.

Por que celebrar 50 anos de carreira apostando em canções inéditas e não fazer um disco de clássicos?

Isso sempre foi uma característica minha: não ir pelo lado mais fácil. Eu gosto, acho que é melhor arriscar e ganhar coisas novas e perder coisas velhas. É sempre revigorante e muito enriquecedor.

Você já lançou discos históricos antológicos na música popular brasileira. Você acha que o “Estratosférica” é uma nova marca na sua carreira?

Não acho que esse seja um disco para mudar a história da MPB. É um álbum que surge em um momento importante e tem um peso pela exuberância. Ele foi feito em um momento muito especial, quando completo 50 anos de carreira e com a idade que tenho. E, em vez de estar acomodada, estou buscando uma renovação.

Qual é a sua maior inspiração na carreira?

João Gilberto. Lembro a primeira vez que o ouvi cantar. Eu era menina que escutava rádio e que tinha como referência tudo que tocava na época: Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Miltinho, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Orlando Silva, eu ouvia tudo isso, quando um belo dia, ouvi João Gilberto cantando “Chega de Saudade”, com aquela voz, com aquelas harmonias estranhas e inovadoras. Senti que estava ouvindo algo estranho, mas que era de uma riqueza e de uma beleza rara, isso deflagrou meu comportamento e minha personalidade.

João Gilberto também influenciou o seu canto?

João Gilberto foi um impacto tão radical e uma influência tão definitiva também no meu jeito de cantar. Naquele momento, que o ouvi pela primeira vez, antes de ser profissional, comecei a reaprender a cantar. Reaprendi a cantar quando ouvi João Gilberto.

O que te faz querer dar um salto aos 50 anos de carreira?

Simplesmente a minha verdade. Não fiz nenhum esforço e nem fui obrigada a fazer isso. Fiz isso porque quis. O disco é assim porque é verdadeiro. Meu canto está ali todo integrado com toda aquela sonoridade e tudo isso pertence a minha história. Tudo tem a ver com o que fiz ao longo desses 50 anos.

O Moreno Veloso comentou que no “Estratosférica” tem todas as suas fases, desde a roqueira até a clássica. Isso foi planejado por você?

Não foi pensado e nem planejado. A única coisa que pedi a Kassin e ao Moreno foi que eles não fizessem um disco careta. Tinha de ser uma sequência do “Recanto”, mas não um “Recanto número 2”. Queria uma linguagem arrojada, uma estranheza em alguns arranjos. Na verdade, o disco foi tomando cara durante o processo.

É um disco comemorativo?

Acho que acaba sendo comemorativo porque tem isso que o Moreno falou, essas várias facetas. Eu tenho elas: sou a Gal roqueira, sou a Gal clássica, a Gal que canta música nordestina. É uma gama musical rica e está tudo ali mesmo. A criança acabou nascendo mais parecida comigo do que com qualquer outra pessoa (risos).

Unir ousadia e pop é mais difícil?

Essas coisas todas são espontâneas e naturais. São linguagens musicais com que convivi e que fazem parte da minha história. Não são estranhas, por isso agrada as mais diversas gerações, porque não têm estranheza e soam naturais.

Você é mais que uma cantora, é uma escola de canto, respeitada pelo passado e também pelo presente. Você imaginou que estaria fazendo sucesso e influenciado tanta gente após cinco décadas de estrada?

É uma benção de Deus e agradeço todo dia. É tudo resultado do que vem de dentro, da vontade, do desejo, da garra e do amor que tenho pelo que faço. Acho que mantenho tudo isso, por essa paixão pela música que continua viva mesmo com 50 anos de carreira.

Até hoje sua imagem está muito ligada ao tropicalismo e a questão de ser considerada uma diva. Como você lida com essa imagem?

De uma maneira natural. Ando na rua sem maquiagem, sem problema, sempre foi assim. Faço supermercado, faço compras e vou ao cinema. Na hora do palco, eu recebo aquela diva (risos), aquela mulher que canta e é tão bom. Isso não me incomoda, isso não me aprisiona. Procuro viver uma vida normal.

Você sente uma cobrança por novidade?

Sempre houve uma cobrança de ousadia na minha carreira. No passado, essa pressão caía de uma maneira mais pesada sobre mim, mas fiz esse disco tranquila, sem nenhuma pressão e nenhuma preocupação, porque estava trabalhando com pessoas que sabiam o que eu queria, e eu também tenho consciência daquilo que quero.

Você se surpreende com a sua própria ousadia?

Não, não me surpreendo. Gosto tanto que você não faz ideia. Não vou dizer que não é doloroso, que não tenha certo sofrimento por trás de tudo. Tem, mas faz parte. Mas tenho tanto prazer em dar esse salto para frente que é mais prazeroso do que qualquer outra coisa.

O que te faz gravar uma canção? Letra ou melodia?

Acho que as duas coisas são importantes. Mas tenho uma tendência a gostar de melodias bonitas, porque sou cantora, mas também canto uma canção com melodia mais simples.

Como surgiu a ideia de chamar o Lincoln Olivetti para fazer o arranjo da música que dá nome ao disco?

A música “Estratosférica” foi composta sobre o período de gravação. Queria uma canção mais dançante e o Pupilo se propôs a fazer e nós gravamos. Depois, liguei para o Kassin e falei que gostaria que o Lincoln Olivetti colocasse os sopros. Não sei porque e nem como, porque ela não tem nada a ver, mas eu associei essa música a “Festa no Interior”, o Lincoln fez o arranjo de metais, que foi o último da vida.

O disco tem vários compositores novos e com quem você gravou pela primeira vez. Sentiu alguma diferença na hora de gravar essa geração?

Não. Quando canto uma canção ela vai com a minha assinatura. Algumas músicas foram compostas de uma maneira e foram transformadas no estúdio. Cada música canto de um jeito, nunca é igual. Pode ser do Chico Buarque ou de quem for, ela pode me emocionar mais ou menos, pode ter uma conexão maior ou não comigo, mas cada uma é de uma maneira.

Você está prestes a completar 70 anos, de alguma forma você sente a idade?

A gente sente um pouco, é claro. Costumo dizer que a minha cabeça e o meu espírito não acompanham a minha idade cronológica. Sou muito mais nova, por dentro. O disco está aí para comprovar. A minha voz é o espelho da minha alma.

Gilberto Gil e Caetano Veloso anunciaram que farão uma turnê juntos, em comemoração aos 50 anos de carreira. Maria Bethânia também está em turnê comemorativa. É possível um reencontro de vocês?

Os quatro juntos? Acho bem difícil. Vou começar com a turnê do “Estratosférica”. Veja só. Fiquei quatro anos trabalhando com “Recanto”, esse deve ser um período parecido, Caetano e Gil estão começando uma turnê que não sei quanto tempo vai durar. Talvez seja bem difícil esse reencontro.

Existe uma vontade, pelo menos da sua parte, de que esse reencontro aconteça, ou já passou a época?

Não é que já passou, mas é que a vida impõe. Vou estar com uma agenda e eles também, graça a Deus.

Você acompanha a carreira deles? Qual a relação de vocês hoje?

A relação é maravilhosa, são amigos, amores e queridos. A minha relação é próxima. Não precisa você ver uma pessoa todo dia, se você vê um amigo todo dia fica chato. Um grande amigo você pode ficar um mês sem falar que quando você vê parece que nunca se afastou. O grande amigo mesmo não tem esse negócio de se afastar.

O Japão tem uma relação próxima com a sua carreira...

Então. Já fui cinco vezes ao Japão. Com “Gal Tropical” fiz uma turnê enorme, 15 shows e mais de um mês. E fui várias vezes, adoro me apresentar lá. Eles gostam e respeitam muito a música e o artista brasileiro. É sempre legal.

A imagem que você tem no exterior é parecida com a sua no Brasil?

Nos Estados Unidos, por exemplo, sou considerada uma cantora de Jazz. Na Europa também vai por essa linha, mas eles incluem a Bossa Nova e o Tropicalismo. Já no Japão, eu não sei o que eles pensam de mim (risos).