EMICIDA

ENTRE A RIMA E A MELODIA

O rapper paulistano explica como se tornou a maior referência do rap dentro e fora do palco

Entrevista publicada na revista Latina em novembro de 2015

O rap brasileiro passa por uma transformação. O gênero saiu definitivamente das periferias para conquistar o país. Um dos responsáveis por essa revolução é Leandro Roque de Oliveira, ou como é internacionalmente conhecido: Emicida.

Usando letras fortes para combater o racismo e harmonia alto astral para passar seu recado, o rapper paulistano virou a maior referência do rap dentro e fora do palco.

Emicida figura entre os grandes artistas da música brasileira e fora do cenário musical foi eleito pela Revista Forbes Brasil, em 2014, um dos nomes mais influentes do Brasil.

É com essa bagagem que o cantor e compositor lança seu novo disco, “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”, resultado de uma aventura de 15 dias pelo continente Africano.

Com a intenção de encontrar suas raízes, Emicida buscou inspiração em Angola e Cabo Verde. Da viagem colheu uma verdadeira mistura sonora. Gravou com músicos africanos como o guitarrista Kaku Alves (de Cabo Verde), o baterista Ndu Carlos e o percussionista João Morgado (de Angola) e com os brasileiros Caetano Veloso e Vanessa da Mata.

O resultado desse desbravamento é um dos discos mais elogiados do ano e uma de shows lotada. Em entrevista exclusiva, Emicida revelou mais sobre a importância da África na sua vida, o momento o rap no Brasil, a ligação com o público de outros países e como a arte pode mudar a realidade.

Combato essa ideia de colocar a música em setores distintos e mais ainda de que há limites para as misturas

Por que você decidiu buscar na África a sonoridade e a inspiração para o disco “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”?

Isso nasceu no sentido de ir atrás da minha ancestralidade, os meus antepassados. Quem é descendente de europeus sabe se a família veio da Espanha, da Itália, de Portugal. O negro brasileiro não sabe de que país da África veio. Essa é minha busca, pela minha história. Já faz anos que leio sobre a África, busco entender como se deu essa crueldade que foram os negros sendo arrancados de suas terras e trazidos para cá. Não está nos livros de história, muito pouco da literatura africana chega ao Brasil. De uns anos para cá eu conseguia encontrar uma coisa ou outra em viagens de turnê pela Europa. Em Portugal e Berlim curiosamente há bastante coisa. Eu já vinha sentindo essa necessidade de encontrar as minhas raízes. Então, viabilizado pelo edital da Natura, esse projeto enfim tomou forma e se tornou realidade.

Como a viagem de 20 dias por Cabo Verde e Angola formatou o disco?

Do começo ao fim. Eu até já havia rabiscado algumas coisas antes de ir, mas quando cheguei lá tudo mudou. Entendi que a gente enxerga a África de uma perspectiva que nos foi imposta lá atrás pela colonização, e os africanos são muito mais do que isso, a terra deles é muito mais do que isso. E estar com músicos angolanos e cabo-verdianos, andar pelas ruas das cidades, tudo influenciou no resultado final.

Como foi gravar com músicos locais?

Alguns nomes eu já conhecia de turnês pelo mundo, já havia visto por aí. E outros nessas minhas pesquisas sobre a África, sua música e sua história. Percebi que eles respiram música, são criativos, geniais. Entram no estúdio e a música flui naturalmente, está ali incorporada à vida deles de uma maneira muito natural.

O disco conta com a participação de Caetano Veloso, um medalhão da MPB. Quando você chamou ele qual era a ideia?

É aquela velha história. O "não" eu já tinha (risos). Eu estava com a música pronta e arrisquei, mostrei para ele ver o que achava. Quando ouviu "Baiana", ele abriu um sorriso tão bonito que ainda que não tivesse topado participar já fez valer a pena. Um amigo disse que ele sendo baiano fez "Sampa", e eu sendo paulistano retribuí com "Baiana", acho que a ideia era essa.

Da nova MPB você chamou a Vanessa da Mata. Você sente que o disco aproxima o rap da música popular brasileira?

Eu não sei. Combato essa ideia de colocar a música em setores distintos e mais ainda de que há limites para as misturas. Na minha cabeça é música brasileira contemporânea e tem mais a ver com juntar forças, em eu achar que determinada pessoa combina com aquilo que quero transmitir, como foi o caso da Vanessa.

Este foi o disco que você mais pesquisou antes de gravar? Como foi esse processo?

Houve muita pesquisa mesmo, tanto no sentido mais objetivo da questão, afinal estávamos indo para outro país gravar um disco, quanto no sentido de saber qual era a África que eu traria para o meu disco. Ao mesmo tempo, como disse, este sempre foi um tema que esteve entre os meus livros de cabeceira, eu venho lendo sobre isso há anos, tudo ocorreu de uma maneira muito natural. E quando cheguei lá rapidamente vi que muito do que sabia eu sabia "errado" (risos), rapidamente muita coisa se desconstruiu.

Sonoramente o que você percebe de diferente do primeiro trabalho?

Seis anos se passaram desde o primeiro CD. Muita coisa está diferente. O primeiro era uma mixtape, a música era feita a partir de bases já prontas, agora fomos para o estúdio com os músicos.

Qual sua relação com a literatura? Já que no disco há leituras de Gil Vicente, Mia Couto, José Eduardo Agualusa e Marcelino Freire?

Leio muito. Talvez seja a única área em que faço extravagâncias com o meu dinheiro. Realmente o disco tem muitas referências literárias, mas não é algo do tipo "vou ler tal livro para citar nas minhas músicas". Flui naturalmente, eles se tornam minhas referências, e elas vão parar nas minhas músicas.

Suas letras falam sobre injustiça social, mas com uma melodia suave e o alto astral. Como é trazer essa leveza para o rap?

Não acho que isso seja uma marca minha, longe disso, mas realmente não me prendo a isso. Tenho músicas como "Boa Esperança", em que o instrumental é mais pesado e a letra trata de racismo. Mas tem também "Passarinhos", em que realmente o instrumental soa leve enquanto a letra trata de uma questão social. Acho que a arte precisa ser livre e cumprir o papel a que se propõe.

Como impressionar e marcar sua história dentro do rap sem agressividade?

Nunca pensei nisso porque acho que o que soa agressivo para alguns nada mais do que a realidade de outros e que precisa ser dita. Quando é descortinada, incomoda e choca, como aconteceu com "Boa Esperança".

plateia internacional

Esta entrevista será publicada no Japão. Em que momento você acha que sua música ultrapassou a barreira do Brasil?

Acho que foi em 2011, quando fomos convidados a tocar no Coachella. Nunca o rap brasileiro havia sido representado lá. Foi uma grande surpresa e nos pegou desprevenidos, até porque nunca havíamos saído do País e foi trabalhoso o processo até que conseguíssemos tirar os vistos. No fim foi uma experiência muito proveitosa, que rendeu muitas histórias para contar (risos). De lá pra cá acho que fui todos os anos para o exterior, EUA e Europa, mas nunca para o Japão, onde adoraria e sei que há um público que aprecia o rap.

Como os estrangeiros recebem seu som e como fazer para a música transcender a barreira do idioma?

Vejo isso tudo como um trabalho, uma construção que não é de uma hora para a outra. Já estive mais de uma vez na Alemanha, por exemplo. Na primeira, havia muitos brasileiros e os poucos alemães estavam provavelmente entrando em contato pela primeira vez com o som. Hoje, passados quatro anos da minha primeira turnê pela Europa, sinto que estou construindo um público local. Vou a Alemanha, por exemplo, e vejo que temos muitos fãs lá, às vezes me param na rua. É muito louco isso. Não é fácil sair em turnê para fora do Brasil. Quem está vendo de fora talvez enxergue um glamour, mas não tem nada de luxo, é perrengue muitas vezes (risos), mas necessário em razão dessa construção de que falei, um trabalho de longo prazo para conseguir levar a nossa música cada vez mais longe.

E em relação ao idioma?

Claro que em alguns momentos dificulta, mas é muito louco e bonito o fato de que a gente consegue se conectar através da nossa música com pessoas que não fazem a menor ideia do que estamos dizendo na canção, é uma coisa de energia mesmo.

O que você acha que sua música ganha e o que ela perde quando a plateia não conhece o contexto brasileiro?

Não sei se perde. Acho que ganha nisso, a gente se conecta por outras razões que não são a letra e isso é muito bonito. O cara não faz ideia do que você está dizendo, mas consegue sentir o que eu quis transmitir quando fiz a música, quando estou ali tocando a música.

Por que o Emicida se tornou nacionalmente e internacionalmente conhecido?

Porque ele dorme pouco, não que esteja certo (risos), e trabalha muito.

Eu consigo enxergar sem falsa modéstia que abri algumas portas para a geração que veio depois no sentido de abrir o caminho mesmo

Assim como o Criolo você se tornou um dos maiores expoentes do rap contemporâneo brasileiro. Como você enxerga isso?

Enxergo com muita alegria e conheço o Criolo há bastante tempo, ele é merecedor e talentoso, digno do seu reconhecimento. Eu consigo enxergar sem falsa modéstia que abri algumas portas para a geração que veio depois no sentido de abrir o caminho mesmo, tanto no sentido de ter aberto um diálogo com a mídia quanto no sentido operacional da coisa. Depois de nós, com a Laboratório Fantasma (empresa que cuida da carreira), muita gente criou coragem para tocar a própria carreira, fazer o próprio merchandising, e eu fico feliz e honrado por ter sido o primeiro.

Ainda existe uma influência norte-americana no rap nacional?

Não posso falar por todo o rap porque essa ascensão trouxe várias vertentes - o que vejo com bons olhos - no gênero. Posso dizer por mim. Comecei imaginando que o rap seria aquilo ali, mas em português, e com o passar do tempo fui entendendo que a beleza estava em levar elementos da nossa música para construir um rap com a nossa cara, em fazer música brasileira contemporânea.

Hoje há uma mistura muito grande na plateia dos seus shows. O que você faz para despertar o interesse do público para se aprofundar na arte e na história do rap?

Enquanto artista, tento me manter relevante, me reinventar, me reler a cada trabalho, me preocupo em não me tornar um cara chato. Eu enquanto amante da cultura hip-hop, procuro reverenciar meus ídolos convidando-os ao palco comigo, cantando suas músicas em meus shows. Hoje, o rap conquistou uma parcela de gente que quer simplesmente ouvir música e se divertir, não quer ter aula, não quer conhecer a origem do movimento, o que eu compreendo também, embora eu as convide a fazer essa pesquisa, pois vão encontrar muita coisa interessante lançada há muitos anos, nos primórdios do rap no Brasil. Todos só têm a ganhar. A música rap é também arte, não vejo mal em divertir as pessoas, tornar o dia delas mais feliz.

O rap tem um novo lugar na música brasileira? Qual o lugar do rap no Brasil atualmente?

Acho que é um gênero que sem dúvida nos últimos anos passou a atrair atenções, passou a levar mais público para os shows. Eu quero ver o rap nos maiores festivais do Brasil e do mundo, sempre.

O que é ser um artista independente?

É saber lidar com a maravilha e o peso de tomar absolutamente todas as decisões sozinho. É ter a sensibilidade de se conectar com pessoas com quem possa trocar. Dá muito orgulho olhar para a minha trajetória desde o início, mas só eu sei o quanto ralei para isso.

Se eu com um disco pudesse acabar com o racismo seria maravilhoso, mas nem tenho essa pretensão. O que eu espero é contribuir para que possamos discutir o tema. Estamos só no começo dessa jornada

Você acredita que seu disco pode mudar um cenário negativo como o racismo no Brasil?

Não acredito. Este é para mim o maior problema do Brasil. Se eu com um disco pudesse acabar com o racismo seria maravilhoso, mas nem tenho essa pretensão. O que eu espero é contribuir para que possamos discutir o tema. Estamos só no começo dessa jornada. Para que a gente acabe com o racismo no Brasil precisamos debatê-lo, admitir que ele existe. As pessoas têm o hábito de jogar o assunto para debaixo do tapete. Algo como "se fingirmos que ele não existe, desaparecerá", quando o que acontece é exatamente o contrário. Quanto menos falamos sobre ele, mais esse mal se dissemina como se fosse uma coisa normal.

O clipe “Boa esperança” sofreu alguns comentários que de pessoas que achavam que ele sugeria uma rebelião para o Brasil. Até onde sua música pode chegar?

Eu não fiz o clipe na intenção de ser o Messias, eu quis apontar para um problema, eu não criei um roteiro de ficção, eu fui ouvir histórias de empregadas da vida real e retratei algumas das humilhações a que elas são submetidas. Acho que se gerou desconforto e medo em algumas pessoas foi justamente por trazer à tona um tema do qual não interessa para elas falar. Achar que por causa do meu clipe haveria uma "rebelião de empregados" em todo o Brasil é uma ideia tão rasa que eu nem vejo por que comentar.

Como você começou na música?

Eu comecei em umas rodas de rima nas ruas, mas fiquei conhecido nas batalhas de freestyle da Santa Cruz, na Rinha dos MCs. Na medida em que fui me tornando mais conhecido nesses ambientes comecei a me preparar para lançar uma mixtape, e assim fiz em 2009, com "Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida até que Eu Cheguei”.

Quais são suas referências e como elas entram na sua música?

São as mais diversas possíveis, mas o samba de mestres como Cartola é algo que muito me encanta e me acompanha em vários momentos. Isso de entrar na música acaba sendo de uma forma fluida e natural, creio.

O que é o melhor e o pior da fama?

O melhor é o contato com os fãs. O pior é ter sua privacidade invadida.

O que você acha desse seu momento?

Me sinto musicalmente mais maduro e feliz. Essa viagem para a África me transformou e me tornou uma pessoa mais feliz, sem dúvida, me sinto inspirado a fazer cada vez mais.