DUDA BEAT

FERA FERIDA

A cantora e compositora transformou suas decepções amorosas em música e virou o fenômeno pop (brega) romântico

Há um ano, a pernambucana Duda Beat apresentava para o Brasil suas desilusões amorosas no disco “Sinto Muito”. O álbum de estreia da cantora e compositora apostou na mistura de letras sofridas com estilo dançante. Produzido por Tomás Tróia e com co-produção de Lux Ferreira, o disco figurou em quase todas as listas de melhores de 2018.

Os amores não correspondidos de Eduarda Bittencourt, nome de registro da artista, serviram de inspiração para as 11 faixas do disco (compostas por ela) e temas como solidão, amor descompromissado, ressentimentos, vingança e empoderamento se misturam aos sons do brega, pop, latina e às batidas dos anos 80, o que garantiu ainda mais personalidade ao álbum.

Radicada no Rio de Janeiro, Duda Beat, em menos de um ano, viu sua carreira decolar. Além do prêmio de cantora “Revelação” da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) e dos convites para dividir o palco (e o trio elétrico) com Ivete Sangalo, a pernambucana se apresentou no Lollapalooza Brasil 2019.

Em entrevista ao Contra-Maré, a artista revelou o processo de transformar o orgulho ferido em composição, como planejou os primeiros passos da sua carreira e a dificuldade de lançar o segundo disco.

O seu disco “Sinto Muito” completou um ano. Você imaginava fazer sucesso com o primeiro trabalho e com esse tempo?

Eu imaginava. Normalmente, os cantores falam: ‘ai, não imaginava’. Eu imaginava e trabalhei muito nisso. Tudo o que tem no disco foi muito bem pensado por mim, pelo Tomás (Troia, produtor) e pelo Lux (Ferreira, co-produção). No fundo, tinha a certeza de que as pessoas iam se identificar com a minha história, porque todo mundo sofre por amor. As coisas também funcionaram para mim porque tive, desde cedo, muita certeza do que estava botando no mundo.

Por que lançar um disco em plena época dos singles?

Porque o disco contava uma história. Ele não era uma coisa de uma música só. Eu estava no fundo do poço e precisava dizer para mim mesma que não ia buscar em mais ninguém essa felicidade, que estava bem comigo mesma. Foi um ato também de se policiar e se educar.

O que você esperava com esse primeiro trabalho?

Compor um disco e botar para fora foi contar um pouco da minha história, que nem em um livro e servir de exemplo para as outras pessoas. Por isso acho que consegui o meu objetivo, muito mais do que fama, do que número. Tocar as pessoas era o que mais queria.

Essa é uma das melhores sensações que um artista pode ter?

As pessoas terem se identificado com a minha arte não tem preço. Para mim é o meu maior sucesso. Não é que seja fácil fazer uma música. Não é fácil. Mas ser honesto ali dentro é o mais difícil. Tive que expor muitas coisas da minha vida. E vivemos em um mundo onde está todo mundo feliz e perfeito no Instagram. O meu disco, além de ter sido uma terapia para mim, porque também sofri, teve muita gente que se identificou e isso é um prazer.

Você consegue dizer o que você trouxe de diferente com o seu disco? Porque ele foi recebido como uma novidade na música.

As pessoas chegam muito para mim e perguntam qual é o truque. Não tem truque. Ser honesto com a sua arte, falar realmente coisas que aconteceram com você acho que foi esse é o segredo. As pessoas se identificam com histórias reais. Uma semana depois de ter lançado o disco recebi mensagens dizendo que minha música tinha mudado a vida delas. Pessoas que estavam passando por fins de relacionamento e agora estavam ouvindo o disco e se sentindo melhores.

Quando você fala que imaginava o sucesso, sonhava com o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) de Cantora Revelação, cantar com a Ivete Sangalo e ser uma das atrações do Lollapalooza 2019?

Não. Imaginava que muita gente ouviria o disco. Disso tinha muita certeza. Mas não que com menos de um ano de carreira ia cantar com a Ivete Sangalo. A Ivete é e sempre foi um sonho para mim de feat. Desde a minha primeira entrevista falo isso. E ela ter descoberto meu sonho e ter me mandado uma mensagem querendo que cantasse com ela foi emocionante.

O encontro foi como você imaginou?

Foi melhor. A Ivete foi muito generosa e carinhosa comigo. Me fez sentir à vontade no palco dela. É difícil isso acontecer. Ainda mais com uma artista tão grande e eu começando. Consegui ficar segura com a minha voz, que era uma coisa que tinha medo que falhasse, por emoção. Quando quero muito um negócio e o realizo, entro falando assim: ‘é mais um trabalho. Você vai fazer o que sabe e vamos embora’. Era mais um trabalho, mas na verdade foi muito emocionante.

Compor foi uma necessidade: precisava ser valorizada e me valorizar

No seu processo artístico quem nasceu primeiro: a cantora ou a compositora?

A cantora. Canto desde os 13 anos. Cantei em igreja e até tive bandinha na escola. Fui para o Rio de Janeiro porque queria ser médica, depois entrei em Ciências Políticas. Me formei. Mas é uma coisa que sempre digo: compor veio da necessidade de me afirmar como ser humano. Estava muito destruída, estava vindo de relacionamentos ruins para mim. E sou libriana, apaixonada por tudo e por todos. Então sofri bastante. Compor foi uma necessidade: precisava ser valorizada e me valorizar. Todos os caras por quem era apaixonada eram músicos e eles estavam ali em cima (do palco). E eu precisava tomar aquele lugar para mim. Tomar o controle da situação, não sei explicar. Mas tive que resolver isso.

Qual momento você decide cantar profissionalmente?

Passei dez dias em um retiro espiritual sem falar, no Vipassana. Eu já estava muito triste e uma amiga minha tinha ido e disse: ‘fui e minha vida está muito melhor agora, estou mais feliz. Acho que você deveria ir’. E fui meio às cegas. Lá decidi que isso (cantar) era o que amava de verdade. Tinha feito isso em alguns episódios da minha vida, mas não tinha seguido como queria. Quando voltei de lá já tinha umas composições de gravador do Iphone mesmo. Procurei o Tomás, que era meu amigo há muito tempo, e botei isso para frente. Ele se apaixonou pelas canções e como crescemos juntos, tínhamos as mesmas referências, foi muito fácil trabalhar com ele.

Como se preparou para ser cantora?

Fazendo aula de canto. Acho que toda cantora tem que fazer aula para o resto da vida, porque é um treino, que nem você treinar seu músculo para ele ficar mais forte. O Tomás além de meu produtor foi meu coach teve a ideia de fazer um show sem ter lançado o disco que foi muito boa para mim. Para eu pegar know how de palco, para saber como me comportar com as pessoas no palco.

Você não se considera uma cantora de MPB e sim uma cantora pop. Por quê?

O pop conversa com muita gente. Sou uma pessoa muito comunicativa, gosto de estar e saber da vida das pessoas, então quero cantar para muita gente. Acho que o meu maior desejo é esse. Não adianta você ter uma mensagem maravilhosa e só cinco pessoas ouvir. Se você botar em uma roupagem em que dez vão ouvir, por que não?

Quais são as suas primeiras lembranças quando o assunto é cantora?

As primeiras cantoras que me fascinaram foram as Spice Girls. Já era muito pop, já cantava com as meninas do prédio, cada uma era uma e eu era a Mel C [Melanie Chisholm], que ela canta muito. A gente só tem essa noção hoje em dia, mas ela é uma puta cantora. Eu também ouvia muito músicas dos anos 1980. Minha mãe escutava muito Sade, que é uma grande referência para mim. Tem cantores homens também: George Michael. Ouve e dá aquela chorada no banheiro. Acho que é bem esse universo que curto.

Como essas influências entram na sua música?

A forma de composição é muito parecida com a dos anos 80, aqueles refrãos com repetição, aquela coisa meio sofrida. Eu tenho no meu disco a música “Back to Bad”, que é anos 80. E era uma coisa que queria. Por isso acho que a minha música é pop, não sou só funk, só música latina. Tem música latina, tem brega, tem reggae, tem axézinho lento, tem bossa nova.

Como você planejou a sua carreira?

No início do início, quando estava fazendo o disco ainda, o Tomás me ajudou muito. Logo que fiz as canções e tal. Depois do lançamento, quem me ajuda até hoje é a Simone Mizrahi, que é minha empresária e todos os passos são muito bem pensados em conjunto. Com o Tiago também, meu produtor. Antes dela era Tomás que me ajudava com isso, e tinha uns feelings meus, lógico. Tinha vezes que pensava ‘isso não é bom’ ou ‘isso é bom’. Principalmente na questão do know how de palco, porque é muito importante você saber se comportar, ir de um lado para o outro. Meu primeiro show foi longe de ser isso.

Como é planejar uma carreira que não depende só de você?

Tem 30% de planejamento e 70% de trabalho. Às vezes as pessoas falam: ‘lançou um disco ontem e já está onde está’. Não, trabalho muito. Todos os dias. Faço aula de inglês, de canto, estava fazendo aula de dança. Cuido do meu corpo, do meu fôlego, estudo o dia inteiro. De oito horas da manhã até as duas da manhã a gente trabalha. Respondendo e-mail, respondendo entrevistas. Então é muito trabalho. A minha estratégia é trabalhar demais. E óbvio, compor canções boas. Porque também não iria adiantar nada se as minhas canções não fossem boas. Desculpa que estou sendo até um pouco metida, mas são boas e honestas. Não tem nada de falso. Eu falo muito sobre o que vivo.

Tem alguma carreira que você olha e pensa ‘gostaria de ter também’?

As pessoas falam de Anitta, mas para mim a rainha é a Ivete. Uma pessoa generosa, amorosa, criativa, engraçada. Ótima de palco. Generosa com as pessoas que estão vendo ela. A gente tem isso parecido assim. Eu gosto desse negócio de abraçar, me sinto bem fazendo isso.

Você falou que trabalha muito, mas é prazeroso?

Adoro. Fico me sentindo mal sem. Fui passar uma semana depois do Réveillon na praia e fiquei ‘tá bom, gente’. Três dias. E eu pensando ‘tá, a gente não vai fazer nada não?’. A gente felizmente tem uma equipe que gosta de trabalhar. Pensei ‘vamos levar o computador para a viagem, porque vai que surge uma ideia’. É meio que isso assim. A gente não se força a nada, mas se vem a gente respeita aquilo e trabalha.

Ser cantora é como você imaginava?

É como imaginava. Mas assim, tem coisas que só vivendo. O carinho do público é uma coisa que só vivendo. Gosto de conversar com eles. Eu costumo dizer que meus fãs não são meus fãs, são meus amigos. Escuto as pessoas que estão me ouvindo. É importante saber quem está te consumindo também. Sei quem é o meu público, o que ele gosta. É muito importante saber. E se interessar por isso é o meu trabalho.

Me dá um pouco de pena de mim, às vezes. Quando eu canto: ‘Nunca fui tão humilhada nessa vida

Você acha que compor é um dom ou um exercício?

Os dois. Depois que descobri que sei compor, porque estudei muito, é uma coisa fácil e prazerosa para mim. Semana passada recebi a Ana Lomelino (Mãeana) falando: ‘ai, Duda, faz uma música para mim’. Eu pensei nela e fiz uma música. Para mim é muito natural, por isso acredito no dom. Acredito muito que a música escolhe você. Tenho um pouco isso, porque não é à toa que estou andando na rua e vem um pensamento e gravo. Você é porta-voz de um desejo maior. E, ao mesmo tempo, tem que ter prática. Eu tento compor pelo menos uma por mês. Antes compunha muito, porque estava com tempo, estava querendo fazer aquilo, estava ansiosa. Mas agora com viagem, não sei o quê e não sei o que, também tenho que pensar em outras coisas. Mas tento pelo menos uma música por mês para eu não me perder.

O processo é doloroso ou tranquilo?

O processo é querer primeiro e respirar. O meu processo é esse.

Tem algum ritual para compor?

Tenho que estar sozinha, mas não tem muito ritual não. Já fiz música tomando banho. Fiquei na cabeça e pensei ‘não posso esquecer disso não’. Saí, me enxuguei, peguei o celular. E pronto. De noite disse: ‘Tomás, bora fazer um negócio de violão na música?’. Ele é um ótimo controle de qualidade.

Você toca algum instrumento?

Nada, vem tudo da cabeça. Letra e melodia é da minha cabeça. Tenho até medo de aprender um instrumento e isso me limitar. Lux e Tomás tem opiniões diferentes sobre isso. O Tomás acha que tenho que aprender um instrumento, porque isso vai me expandir. O Lux fala que não, que pode limitar minha forma de compor. Ele acha que componho bem da minha cabeça, da minha loucura. Eu sou do time Lux. Eu prefiro aprender a dançar, idiomas. Eu não me vejo no palco fazendo ‘belelem, belelem, belelem’.

E quando você vê a sua história traduzida em música, qual é a sensação?

Me dá um pouco de pena de mim, às vezes. Quando eu canto: ‘Nunca fui tão humilhada nessa vida’ a pessoa fica ‘meu Deus do céu, a bixa sofreu muito’. Mas acho gostoso também, não sou de ficar me ouvindo em casa. Eu não me escuto muito não. Eu entrego e foi. É que nem os clipes, não vejo nenhum deles. Na hora que sai vejo uma vez, falo ‘maneiro, tá no mundo’. O meu disco as vezes que escutei tive muita certeza de que estava tudo certo ali. Então para mim aquilo ali já basta.

Hoje em dia sofrer é um ato de coragem. Mostrar uma música é um ato de coragem em dobro?

Eu acho. A minha coragem de botar tudo para fora foi realmente da necessidade de ser respeitada. Estava mal amorosamente, financeiramente, no meu trabalho. Estava começando a faculdade de Ciências Políticas. Queria ser médica. Sete anos tentando. Estava em um contexto de tipo assim desgosto. Vim para o Rio de Janeiro de Recife e o que consegui até agora? Ótimos amigos, ok, isso tinha. Acho que a coisa que mais tinha era amigos verdadeiros. Tinha um grupo de sete pessoas com quem sei que posso contar. Tenho até hoje. Mas de resto estava insatisfeita. E aí quando surgiu essa oportunidade de ir para o Vipassana falei ‘vou tentar e ver o que acontece’. Pior não vai ficar. E aí foi maravilhoso.

Você acha que “Sofrência Pop” é a melhor definição para a sua música?

Adoro essa definição de sofrência pop. Começaram com uma definição de sofrência indie e odiava. Porque indie acho que é muito diferente do que faço. Para mim comecei pop, para os outros não. Para os outros era indie, diziam que era um som diferenciado. Não tem nada de diferenciado no meu som no sentido de ritmo. Tem um brega, gente. Se for chegar em Recife e dizer que MC Troinha é indie, não tem sentido. Tem reggae na minha música. Bob Marley é indie? Desculpa. Eu até brincava nas entrevistas: ‘se for indie de independente eu sou’.

Como construiu sua referência?

É uma referência de vida mesmo. Passei a vida inteira morando em Recife. Vivi o axé, o brega, o samba, o pagode. Todo domingo ia para o pagode dançar com as minhas amigas, tomar cerveja. Eu normalmente componho em forma de pagode as minhas letras. Mas aí transformo no que quero, dentro do possível. Sempre nasce meio pagodão.

Sofri durante mais ou menos dez anos, imagina a quantidade de histórias que tenho para contar

Como é passar uma mensagem triste em forma de música dançante?

Isso era um objetivo meu desde sempre. Apesar de ter sofrido muito, eu sempre fazia piada comigo mesma. E falei assim: ‘bom, tenho que ser 100% honesta com quem sou’. Na música que fala ‘eu nunca fui tão humilhada nessa vida...’, é algo que falo, tipo ‘menina, eu nunca fui tão humilhada...’. Isso era uma coisa recorrente na minha vida. Tem bordão meu que ainda nem usei que deve entrar no próximo disco. Quando fiz o disco, as canções eram tristes, a “Bédi Beat” é uma canção triste pra caramba. Mas falava ‘eu quero que fique animado’. O povo está triste mas tem que dar uma animada. No segundo semestre quero fazer um EP do “Sinto Muito” acústico, convidar pessoas que admiro, para a gente cantar a música como ela nasceu, na tristeza mesmo. Acho que posso sempre uma outra visão da minha música, o lado triste, que é como ela nasceu. Mas se puder dar o tom feliz antes para o povo se animar, para conhecer a música, é por aí.

Na sua música você canta sobre uma época que você não está vivendo mais. Como é manter a verdade daquela música hoje namorando, apaixonada e com sucesso?

É, tem que sempre lembrar das coisas, por isso que é tão dolorido o processo. Eu sento no meu quarto e lembro ‘poxa, aconteceu aquela situação, cheguei lá e o cara olhou para minha cara e disse que queria uma namorada e eu gostando do cara’. A música vem. Tem que relembrar as coisas. E antes de namorar o Tomás eu vi o cara com a namorada nova dele, aí fiz a música “Egoísta”, estava puta. Como que ele namora uma menina dessas que não fala e eu aqui amiga dos amigos, gente boa. Rolava isso. Porque também eu me acho né, tenho que me achar. Pensava ‘sou a menina mais bonita daqui, cheguei toda gata’.

Você compõe muito bem na sofrência. E agora que você está com uma vida mais romântica?

Também componho bem na felicidade, vai sair uma música animada agora com Jaloo e Mateus Carrilho. Inclusive o meu próximo disco quero que seja de transição. Vou falar de sofrência para sempre, porque sofri durante mais ou menos dez anos, então imagina a quantidade de histórias que tenho para contar. Mas agora meus próximos discos vão vir mais misturadinhos. Tipo assim: ‘o hoje e o ontem’. O segundo disco é um disco de transição. Estou cheia de canção ainda. E tem isso de hoje em dia, o que estou vivendo, como é essa nova experiência.

Você tinha medo do seu som não ser compreendido?

Medo não, mas fiquei muito ansiosa para soltar logo. O disco seis meses antes já estava praticamente pronto e ficava ‘meu Deus, quero que as pessoas escutem logo, quero saber o que vai acontecer’. Muito ansiosa, parecia que ia morrer. O Tomás falava ‘calma, sem pressa’. E não aguentava mais. Falava para ele ‘esse disco está velho para mim, quero fazer o outro’. E ele falava ‘normal, calma’.

O fato de ter sido premiado indica que está no caminho certo?

É muito bom ganhar um prêmio, ainda mais da APCA que são críticos votando, acho muito importante. A música “Bixinho” ganhou com a Elza Soares. As duas melhores canções do ano: a minha e a dela. É realmente muito bom. Mas honestamente não curto muito esse negócio de prêmio. Porque não fui só eu a revelação do ano. Não tem muito como você medir talento. Cada um tem seu talento, é que nem o The Voice, acho aquilo cruel. Porque como você pode dizer para uma pessoa que canta grave e para outra que canta agudo que o talento dela é melhor do que o dele? É diferente, não tem como medir. Acho que prêmio ao mesmo tempo que é muito bom de receber e uma grande honra, é muito triste, porque bota os artistas em lugar de competição uns com os outros. E não é isso. Eu nunca vou cantar igual Mahmundi, ela é maravilhosa do jeito que ela é. Como ela nunca vai compor igual a mim. E que bom, sabe? Eu acho cruel.

Acho que é muito importante eu ainda estar independente. Se lascar é importante

Você falou muito da mistura que seu som tem: reggae, pop, brega. Mas sua música tem uma unidade muito forte. O que você acha que liga o seu disco?

As histórias, a narrativa de uma mulher que sofreu, que se apaixonou. E a gente está em um tempo em que as pessoas não se apaixonam mais e não ficam juntas. Então, ela teve a coragem de se apaixonar e teve a coragem de ser rejeitada. Várias vezes. E teve que passar por isso e transformar aquela dor em alguma coisa. A narrativa do meu disco acho que é a coisa mais importante dele. Não é o barulhinho que tem lá, a batida, aquilo é ótimo, é maravilhoso. Mas é a narrativa. Eu toco no show e as pessoas choram no “Todo Carinho do Mundo para Mim é Pouco”. Aquilo emociona, porque as pessoas sentem aquilo. Costumo dizer que o cantor sem uma boa canção pode ter todos os conhecimentos do mundo, ser amigo de Caetano, Gil, de Ivete Sangalo, mas se você não tem uma boa canção, não adianta.

Uma das coisas que mais me impressionou é a sua interpretação, porque às vezes a gente vê você com raiva, a gente vê você pulando. Como que foi esse processo também?

Isso é uma coisa de aula de canto. Entrava para a minha aula de canto e a minha professora me falava assim “Egoísta”, vamos analisar essa letra. ‘O que você sente nessa música?’ E eu falava ‘sinto raiva, ódio, desgosto’. E ela dizia ‘então vamos cantar na raiva? Na raiva a respiração é assim’. Acho que é muito mais isso, entendeu? Tem todo um trabalho. Eu não estou onde de bobeira. Não foi sorte. Foi trabalho. Sorte tem também, mas foi trabalho e vida.

Rola uma pressão para lançar o segundo disco?

Óbvio. Eu dei uma sofrida, mas agora estou tranquila. Sei que rola uma exigência muito grande de ser igual ou melhor do que o primeiro. O segundo disco é um disco difícil. O primeiro é fácil, porque ninguém está esperando muito de você. Mas eu vou entregar.

Vai ser independente?

Provavelmente. Não quero me amarrar com ninguém agora não. Só com o Tomás que está comigo. E as outras quatro pessoas que trabalham comigo. Eu acho que é muito importante eu ainda estar independente. Se lascar é importante, entendeu? Dar umas merdas, você querer estar em um lugar e estar em outro. Aí você fica puta da vida, mas tudo bem, você tem que passar por isso. Rolam convites, óbvio. Mas por enquanto não, estou bem assim. Fazendo meu dinheiro com show, junto, não gasto. Para poder reinvestir.

Vi que você tinha dois desejos para o disco novo, que era gravar com o Wesley Safadão e com a Pabllo?

Adoraria, mas já mudei de desejo. Pabllo inevitavelmente vai rolar, porque a gente se ama muito. É um amor de outra vida. É uma empatia que rola e a gente se dá muito bem. Foi o primeiro artista grande que falou de mim, isso tem um peso muito grande. Com a Pabllo tenho muita vontade de fazer um single para o próximo Carnaval. O Wesley também amo. Eu cresci no meio de forró, então adoro ele. Apesar de música sertaneja ser um pouco tudo meio parecido, acho que ele tem um temperinho ali, sabe, na voz. Gostaria muito de gravar com ele. Mas agora quero Ivete Sangalo no meu disco. Eu sempre quis Ivete, sempre, sempre. Só que aí a gente trabalha com o que está mais próximo. Não que o Wesley esteja próximo, mas conheço gente que o conhece. Eu quero muito que tenha Ivete no meu próximo disco, quero ver se faço alguma coisa que tire um pouco ela do lugar onde ela está. Fazer uma música diferente.

Queria saber sobre o palco. A gente assistindo parece que você domina desde sempre. É tranquilo e sempre foi?

Hoje em dia é tranquilo, mas no início ficava um pouco sem graça. Nunca fui de ficar nervosa antes do placo. Porque respiro muito na tranquilidade. Mas ficava um pouco ansiosa para acontecer logo. Com medo de esquecer as coisas. Tinha um pouco desse pânico. Não de nervosismo de ter que entrar e lidar com isso, isso para mim sempre foi fácil. Mas isso de entregar o meu trabalho direito, porque me cobro muito. Em uma entrevista me perguntaram o que eu preferia: composição, gravação, palco. E eu respondi palco, óbvio. É muito fácil para mim. Parece que já faço isso há muito tempo.

Eu sei o tamanho da minha carreira. E ela não é tão grande quanto as pessoas acham. Ainda.

O que você passou antes de chegar ao sucesso?

Por muita coisa. E tenho uma amiga que tem uma empresa de pintura de parede e ela me contratou para ser assistente dela, para poder me pagar um salário, para eu juntar dinheiro e fazer o meu disco. Hoje em dia sei pintar paredes, ela me ensinou. Eu limpava chão. Tudo. Para poder juntar o dinheiro. Por isso que demorou também dois anos. Porque as canções foram feitas em um ano. Só que eu tinha que pagar o menino da mix, aí trabalhava dois meses. Aí depois trabalhava mais três meses e pagava ensaio e não sei o quê. Mas agora está tudo bem, está tudo vindo, está tudo certo. E também se der errado eu não tenho medo não. Vou trabalhar com outra coisa. Se der errado um dia não tenho medo de trabalho não. Já trabalhei limpando o chão, já trabalhei entregando panfleto. Já fiz muita coisa.

O que você chama de dar errado?

Não sei, se o segundo disco for um fracasso, que Deus o livre. Não vai ser não. Mas vamos supor: daqui a 30 anos, acabou. Vou ter que fazer outra coisa. A fonte esgotou. Um exemplo. Mas isso não vai acontecer não. Não tenho medo disso não. Aí a gente vai fazer outra coisa. Abre uma casa de bolos, sei lá.

A sua família te ajudou financeiramente?

A minha família não me ajudou em nada. Mas eles me davam muita força. Minha mãe me ligava e falava ‘e aí, minha filha, está gravando? Espero que fique bom. Pode ser que não fique bom, mas a gente está aqui’. Meu pai nem queria saber muito no início. Ele achava que era uma loucura minha. Ele pensava ‘minha filha agora vai se perder para as drogas’. Eu brinco que a paixão de Cristo de Jerusalém está perdendo um ótimo ator. Meu pai é um drama. Mas hoje em dia o meu pai é o meu maior fã. Ele comenta em todos os vídeos, manda mensagem para os meus amigos, ele faz questão de participar, me mostra versões de minhas músicas no Youtube que eu nunca vi. Minha mãe também: sempre que eu vou em Recife ela que me ver. Minha família toda. Ela quer participar.

Em que momento você acha que virou a chave deles?

Acho que virou na primeira vez que eles me viram no palco. Foi um dia que meu pai chegou lá e começou a fazer uma entrevista com as pessoas. Meu pai é muito engraçado. Ele foi ao show e passou o show inteiro entrevistando as pessoas tipo assim: ‘oi, tudo bem? Eu sou da Sony – ele inventava umas histórias assim – e estou fazendo uma pesquisa: você veio ver o show de quem?’. Aí a pessoa falava: ‘Duda Beat’ e ele falava: ‘e ela é boa?’. Aí a pessoa falava: ‘ela é muito boa, ela é ótima’. E ele falava: ‘é minha filha’. E saia. Ele passou o show inteiro fazendo isso. No final ele disse: ‘85% veio para te ver’. Muito engraçado. Eles são muito parceiros, muito meus fãs. Eu quero melhorar de vida para melhorar a vida deles. Para a minha mãe parar de trabalhar, ela trabalha o dia inteiro. É uma guerreira. Ela é instrumentalista cirúrgica, às vezes ela sai 4h da manhã. Tem cirurgias de 15 horas. Meu pai também. Todo mundo lutando ali para se manter. Aí eu tive que trabalhar.

O que te liga à música?

Não sei, acho que emoção. Eu me emociono muito fazendo isso. Eu me emociono ouvindo alguém cantando algo que eu escrevi. Eu me emociono cantando.

Para você o que é uma música boa?

Uma música boa é uma música que toca as pessoas. Para mim uma música boa é que as pessoas sintam aquilo, que conte alguma coisa. Não gosto daquelas músicas que falam ‘ontem andei e estava caindo canivete’. Não faz sentido, não curto muito não. Acho que tem que contar uma história para a pessoa pelo menos entender. Eu fico triste quando alguém fala que não entende a letra de “Bixinho’. Eu acho tão simples. Eu tento deixar as coisas bem simples. É simples, todo mundo vai entender, mas não é trivial. Tem uma mensagem atrás daquilo.

Chega a ser poético?

É um pouco poético, óbvio. A nossa vida é poética. O sofrimento é poético. É horrível sofrer, mas também é importante. Não existe uma coisa que é só ruim, nem uma coisa que é só boa. Tipo, é muito bom viajar o país inteiro e fazer show. Mas é muito ruim, porque a minha gata está em casa e estou morrendo de saudade dela. Tem que saber lidar com isso, tem que ter maturidade.

E como você trabalha isso?

Ocupando meu tempo, fazendo as minhas coisas, conversando com as pessoas. Fiz terapia um tempo. Recomendo, é maravilhoso. Parei agora por falta de tempo. Mas assim, eu não piro porque quando estou em casa eu tenho a rotina, eu tenho a minha gata, tenho o personal que vou lá malhar. Quando fiz terapia meu terapeuta trabalhava comigo um negócio assim: ‘você conseguiu estudar a tarde inteira? Então você pode comer um doce’. Que nem cachorro.

Hoje você sabe o tamanho da sua carreira?

Eu sei o tamanho da minha carreira. E ela não é tão grande quanto as pessoas acham. Ainda. Para quem está de fora parece que é mega. Mas para mim não, porque sou muito ambiciosa. Quando tiver um milhão já vai ser uma porcentagem da população do Brasil, aí já dá para falar ‘ok’. O que eu acho que é muito bom na minha carreira é que é muito rápido. Foi muito rápido eu ter chegado aos quase 100 mil. Eu ter 12 milhões de streamings no meu CD independente, que não tem dinheiro em marketing. É muito bom, mas não estou nem na metade de onde eu quero chegar.

Você acha que você começou em uma época boa por conta da idade?

Então, se teve uma coisa que tive medo nisso tudo, foi disso. De lançar um disco velha. Só que depois entendi que ainda bem que lancei com a cabeça que tenho hoje. Imagina com 20 anos brincando de cantar o que ia ser. Ainda bem. Tenho 30 anos, é uma idade ótima. Hoje em dia também as referências mudaram. Acho que está tudo certo, veio na hora que tinha que vir.