ADRIANA CALCANHOTTO

RESPOSTA AO TEMPO

Com mais de uma década de produção, a cantora e compositora usa o tempo para ficar íntima das canções antes de entrar em estúdio

Entrevista publicada na revista Latina em agosto de 2019

Adriana Calcanhotto está de volta. Depois de oito anos sem lançar um disco de inéditas – o que não quer dizer longe dos palcos: a cantora registrou em DVD os shows “Olhos de Onda” (2011) e “Loucura” (2015), com canções de Lupicínio Rodrigues, e viajou com a turnê “A Mulher do Pau Brasil” no ano passado – a artista retorna ao estúdio com o álbum “Margem” e as composições inspiradas no mar.

O regresso encerra a trilogia oceânica iniciada com “Maritimo”, em 1998, e reforçada com “Maré” dez anos depois. O novo trabalho começou a ser concebido com as canções “O príncipe das Marés” (de Péricles Cavalcanti) e “Os Ilhéus” (de José Miguel Wisnik), que não entraram no disco “Maré”.

Os 11 anos de produção “secreta” trouxeram o álbum mais político e polirrítmico de sua carreira. Sem prazo, pressão ou expectativa, a compositora apresenta sua visão atual dos oceanos e aposta na levada da bossa nova, na batida do funk e até e na guitarra portuguesa para narrar as crônicas marítimas.

Na nova turnê, que começa esse mês no Brasil, a artista será acompanhada por Bem Gil, Bruno Di Lullo e Rafael Rocha (o trio que esteve com ela em estúdio) e desembarcará no continente europeu, nos Estados Unidos e Japão.

Em entrevista, Adriana Calcanhotto contou em detalhes o processo de criação do “Margem”, a influência da vida de professora na Universidade de Coimbra na carreira artística e a importância de Maria Bethânia para sua história.

a canção e o tempo

“Margem” foi produzido durante 11 anos, o projeto período mais longo da sua carreira. O que o tempo trouxe de novidade para o trabalho?

Já é novo o fato de ter esse tempo todo. Nunca tive um período assim para preparar um disco, não que tenha só feito isso durante esse tempo. Mas nem o meu primeiro disco, que geralmente os artistas têm mais material eu tive tanto tempo. Então isso em si já é novo. E uma coisa que acontece, que não é novidade, é que essas camadas de tempo se imprimem no som.

Como foi experimentar a sensação de ter tempo e tranquilidade para preparar um disco?

Como era uma coisa praticamente secreta, que eu trabalhava sozinha, o disco não tinha obrigação nenhuma, compromisso, prazo, pressão, nem sequer interna, porque estava fazendo outras coisas e pude aproveitar isso. Foi muito bom. Não sei se isso poderá se repetir, não sei se essa foi a primeira e última vez, mas foi uma experiência muito interessante.

Você acha que esse tempo e a falta de expectativa (sua e do público) mudou o resultado?

Acho que como não tinha um resultado previsto, como eu não tinha expectativa, não sei em que sentido mudaria. O que foi mudando foi o tempo que pude despender para chegar um momento e dizer: ‘está pronto e pode ser lançado’.

Como é esse momento do: ‘está pronto’?

É muito subjetivo, é muito difícil dizer. Essa pergunta quando faziam para o João Cabral de Melo Neto, quando é que ele sabia que um poema estava pronto, ele falava que ouvia um clique, como se fosse um estojo de óculos fechando. O que aconteceu comigo foi ‘é isso que o disco quer dizer’, quando chegou na nona faixa. Sempre sonhei em fazer um disco enxuto de nove faixas e vi que não queria dizer mais nada, não precisava de mais uma canção. Estava tudo ali concentrado. Nesse momento, pensei: ‘está pronto’.

Nove músicas em 28 minutos. É um tempo ideal para os dias de hoje?

Acho o ideal no tempo, óbvio que para os dias de hoje talvez facilite. Acho difícil hoje alguém ouvir um disco com o dobro disso. Mas devo dizer que esse sempre foi meu objetivo. Sempre quis fazer um disco muito enxuto assim, e, na verdade, nunca consegui, porque iam chegando canções e ia fazendo no meio do processo de gravação, ou aparecia uma canção que alguém me mandava. Sempre ia acrescentando coisas. Às vezes ia para o estúdio com o repertório fechado, mas ele mudava durante o processo de gravação. Dessa vez foi o contrário disso, não estava almejando nove faixas. Com nove faixas tinha dito tudo que tinha para dizer.

O nome “Margem” surgiu antes das músicas do disco?

“Margem” surgiu quando estava lançando “Maré”, acho que pelo fato de estar tocando no assunto, falando no disco, nas canções, na minha relação com o mar, na própria trilogia, me veio esse nome. Quando veio “Margem”, foi quando vi que teria esse terceiro disco. Podia nem ter tantas canções, só duas, mas se tinha um nome eu tinha um disco.

Renovação é uma palavra que aparece muito nas críticas do álbum. É algo que você busca na carreira?

Eu busco na vida. Acho que temos que estar abertos para o novo. Nossas células se renovam, a renovação é constante. Acho interessante que as pessoas que escreveram sobre o disco usem essa palavra. Isso é um feedback importante para mim.

as três fases do mar

Quando você lançou o “Maritimo” não tinha ideia que viraria uma trilogia. Em que momento surge esse desejo?

Essa constatação surge quando me dou conta, 10 anos depois do “Maritmo”, que vou fazer outro disco de mar. Que tenho mais canções e que estou revisitando o assunto. Por isso até ele se chama “Maré”, porque é o mar que volta, é o mar mais uma vez, é o mar vai e vem, quando ele volta. E vi que isso seria interessante, porque pensei que estava pronta para fazer outro disco sobre mar, e mesmo assim senti que um segundo disco de mar não esgotaria o assunto e nem, obviamente, três discos esgotam. Mas vi que talvez uma trilogia fosse melhor do que não estabelecê-la e fazer quantos discos de mar fossem.

Quais trilogias marcaram sua vida?

Difícil dizer isso, mas me vem à cabeça “Trilogia das Cores”, do cinema francês.

Você ouviu o “Maritimo” ou “Maré” quando estava no processo do “Margem”?

Não. E aliás, nem ouvi a trilogia inteira até agora. Vou precisar ouvir para montar o show. Mas, sobretudo no estúdio, para fazer o terceiro disco, não ouviria mesmo. Vou ouvir agora em função dos espetáculos, mas para gravar não senti a menor necessidade.

O novo disco traz duas canções (“O príncipe das marés” e “Os Ilhéus”) que ficaram de fora do trabalho de 2008. Esse é o principal elo da trilogia?

Certamente, porque não entrou e fiquei com muita pena, mas agora vejo que essas duas canções eram muito mais relativas ao “Margem”. Então acho que a semente é assim, é onde começa e é a principal ligação entre os dois discos.

Dos três esse é o trabalho mais político? Você acha que a música é um bom lugar para fazer política?

Acho que qualquer trabalho artístico é político. Querendo ou não. Esse certamente é mais explícito nesse sentido, porque estou tratando do mar, da situação dos oceanos de hoje, o mar de hoje. Em relação ao primeiro disco da trilogia, não só a situação de lá para cá piorou como envelheci, então acho que o sentido de urgência, por esses dois motivos, é muito maior.

O mar é apenas o mar, ele não tem a intenção de ser violento com ninguém

Você nasceu Porto Alegre (Rio Grande do Sul) uma cidade que não tem mar. Lembra do seu primeiro contato com o mar?

Não. Eu não tenho memória, mas tenho as fotos disso, e de vez em quando olho essas fotos. Tenho lá dois anos, três anos no máximo, e é uma cara feliz de uma pessoa que está deslumbrada. Embora tenha nascido em uma cidade que se chama Porto Alegre, é uma cidade que não tem mar. Acho que sou esse tipo de pessoa que sofre o impacto, o fascínio de ver o mar pela primeira vez, que é uma coisa que quem nasce na cidade com mar não tem. Não tenho a memória comigo, mas pelas fotos vejo que foi um impacto enorme.

O fascínio pelo mar já inspirou grandes artistas. Quais marcaram sua história?

Muitas, a partir de eu começar a fazer o trabalho mais explícito sobre o meu fascínio pelo mar, comecei a ler mais as obras sobre o mar e as coisas relativas a isso. Tem muitas obras desde a Odisseia, os Lusíadas e Moby Dick, toda a literatura clássica de mares, canções praieiras do Caymmi. Essas obras assim que utilizam o mar como metáfora da condição humana, quanto mais leio mais gosto de ler.

Você não vai à praia, mas gosta de alto-mar. Que sensação ele te traz?

Acho que a praia é muito relativa ao sol, e não sou uma pessoa que fica exposta ao sol. O mar aberto, o alto-mar é literalmente um território de ninguém, da nação nenhuma, é a natureza, o mar em sua condição de mar. Nós e a literatura temos muito uma tendência de considerar que o mar é cruel, violento, agitado. A gente humaniza certas características do mar. O mar é apenas o mar, ele não tem a intenção de ser violento com ninguém.

o mercado

Há oito anos você não lançava um álbum de inéditas e muita coisa mudou no mercado. As músicas são lançadas primeiro na internet, muitas vezes nem chegam a ter um disco físico. Como isso influenciou o “Margem”?

Acho que no processo criativo não fez muita diferença, de construir uma canção, escrever uma canção, pensar um arranjo, tudo isso continua sendo a mesma coisa. Aí o mercado, as plataformas, nunca foram muito do meu interesse. Eu vou no trabalho até a pasteurização do disco, e depois, como não entendo nada, não me meto, porque não é meu departamento.

Você é uma cantora que ficou conhecida com músicas no rádio e nas novelas. Como está trabalhando com a internet?

Eu uso a internet como uma ferramenta de pesquisa. É importantíssimo, é impressionante como está no laptop, por exemplo, na situação de você estar fazendo uma canção e ali na internet você têm os dicionários de acordes, de sinônimos, de antônimos o analógico. Enfim, é uma ferramenta de pesquisa muito legal. Uso muito mais nesse sentido, e sempre tive fascínio por esse lado da internet, por poder acessar as bibliotecas e isso acho incrível. Tem também o fato de que agora as pessoas também assistem a novela no celular, tablets, nos seus aparelhos na hora que elas querem. É engraçado isso, as canções estão lá, tocando na novela, não é todo mundo assistindo na mesma hora, ao vivo, e isso também é interessante, é bem democrático.

Como você ouve música hoje?

Ouço um pouco de música na internet, tenho as minhas playlists de música brasileira, erudita, antiga, jazz. Tenho escutado muita música medieval, e tenho umas fases assim, que ouço jazz, que ouço músicas com as quais vou trabalhar, como é esse repertório de músicas antigas. No momento tenho escutado mais isso, e isso está mais em playlists. Estou sempre procurando na internet os lançamentos dos artistas de música medieval.

canções do margem

Você finalizou algumas canções do “Margem” se ouvindo em estúdio. Como foi entrar para gravar com parte do material não finalizado?

Para mim até estava finalizado, a coisa é que quando componho no violão, costumo gravar mais o que estou fazendo do que durante o processo. Vou gravando, vou atualizando as gravações e vou sempre escutando a mais recente que sei que ali está a última versão. Quando estou compondo no laptop com os loopies com as programações, não gravo tanto, porque não preciso da letra, preciso gravar mais pela música, pelo violão, pela melodia e tudo. Como não gravo essas que faço com programação, foi isso que aconteceu. Foram essas que cheguei e quando ouvi a voz, que estava só na minha cabeça, vi que tinham palavras que não ficavam tão bem na música como já teria visto se tivesse feito elas no violão, gravado várias vezes. É interessante porque é novo, nunca tinha passado por isso, que é ouvir uma coisa que está em tese pronta e achar que pode ficar melhor e modificar uma letra no estúdio. Achei bom.

A música “Margem” você ficou 10 anos compondo em cima da batida, esse processo é prazeroso ou doloroso?

No caso específico de “Margem” não teve nada de doloroso porque não tinha compromisso nenhum, então foi só a parte prazerosa que é a de ficar mudando as sílabas de lugar para obter mais sentidos em uma mesma palavra. Às vezes esse processo é doloroso quando a gente tem um horizonte na frente, uma entrega, um prazo, uma encomenda. Aí pode ficar um pouco angustiante nessa certeza de conseguir ou não.

A atitude dentro do estúdio também mudou com o tempo?

Mudou, porque quando comecei a gravar, os métodos eram muito diferentes, o ambiente era extremamente masculino, era muito mitificado, os botões, a coisa da engenharia acústica. Agora gravar com o Bem (Gil), Bruno (Di Lullo) Rafael (Rocha), que produzem comigo, que dividem comigo as coisas, que trabalham com total calma, que não têm aquela afobação do estúdio, que não existe mais porque não precisa existir. Com o tempo mudou muito a vida do estúdio, não foi só a tecnologia de gravação que mudou, a tecnologia acabou gerando, na minha opinião, um ambiente mais calmo no estúdio.

Como é sua relação com Bem Gil, Bruno Di Lullo e Rafael Rocha?

A minha relação com o Bem, Bruno e Rafael, que entre eles já é muito ajeitada, a gente está estreitando laços de amizade e de trabalho, as nossas afinidades musicais e artísticas, mesma forma de ver o mundo.

O quanto sua música depende da letra para ser compreendida?

A música pode ser compreendida sem que se conheça a letra. Acho que a letra soma códigos com a música e a melodia, e determinadas letras tem várias camadas de códigos. Isso é inclusive uma coisa que digo muito para meus alunos de composição, o importante é que se você não tem todos os códigos, você não perde nada, você vai ganhando a medida que vai reconhecendo os códigos. Mas se você não tem nenhum código daqueles você não deixa de compreender um primeiro nível que a canção tem, que a letra tem e que a melodia tem. O interessante é isso para mim no trabalho de composição, é por um lado a lapidação e por outro essa superposição de camadas de sentidos.

Tem como explicar o seu sucesso em países como o Japão?

Bom, explicar não sei explicar. Fico super contente com a resposta que tenho do público japonês. Acho que esse público tem uma compreensão da música brasileira, do swing, da batida, do samba, inclusive tem o samba japonês que gosto muito, que cito na gravação do “Maritimo”, na canção “Marítimo”.

Como foi o trabalho de pesquisa sonora?

É o disco mais explicitamente polirritmico, porque gosto muito de polirritmia. Agora toco violão, fico imaginando polirritmia na minha cabeça enquanto estou construindo as canções. E o Rafael Rocha, o Bem e o Bruno eles também têm um gosto pela polirritmia e me ajudaram a explicitar isso no disco, e o show vai ser isso também.

Samba é a maneira como seu ouvido escuta o mundo?

Totalmente. Às vezes é até um pouco frustrante para mim, por exemplo, tentar trabalhar na clave cubana e coisas assim, porque a tendência natural do meu ouvido é perceber tudo como samba, nem só os ritmos musicais, mas qualquer barulho contínuo o meu ouvido procura o samba, procura o surdo no 2, acha logo, e depois não consigo ouvir de outra forma.

É estranho, em 2019, responder por que gravou um funk?

É um pouco estranho sim, na minha opinião é.

“Era Pra Ser” tem uma guitarra portuguesa. Teria coragem de fazer um fado?

Não teria coragem, que dizer, coragem é uma coisa, agora competência, estofo, eu tenho noção do ridículo ainda. Não faria um fado.

“Ogunte” surgiu do que você ouviu em um telejornal. A inspiração pode surgir a qualquer momento?

A principal preparação, e falo isso muito para os meus alunos de composição, é estar aberto para isso. Não é nem sentar para ver o telejornal pensando que daqui pode sair uma música, porque isso não funciona, mas é também estar sempre abertos para tudo. É uma frase que você ouve, um comentário no telejornal, o próprio jornal, ou é uma pintura, um quadro, uma escultura no museu, uma performance, é qualquer coisa, é a vida que traz o que se chama inspiração.

o canto da sereia

Em uma entrevista você disse que não canta muito bem. Qual sua relação com o seu canto?

Canto porque quero dizer coisas, quero transmitir os poemas, as letras. Eu não tenho uma relação com o canto que seja exclusivamente do canto, no sentido de cantar uma melodia que é linda, com uma letra que não me identifique somente pelo canto e pela música. É nesse sentido que digo que o canto não vem em primeiro lugar para mim, e, por não vir em primeiro lugar, é por isso que não sou, tenho consciência de não ser, uma intérprete virtuosa.

Você se escuta depois que o disco está pronto?

CNão, depois que o disco está pronto, acho que escutei tanto que me deu uma sensação de missão cumprida. Ouvi tudo e não preciso mais ouvir. A não ser que seja como agora, o trabalho de montar o espetáculo. Mas não ouço para ouvir, sempre saio das gravações com uma sensação que dei tudo que tinha para dar, que está dito. Eu não tenho mais interesse em ouvir.

Como você escolhe o que vai cantar de outras pessoas?

CEssa também é uma resposta muito subjetiva, muito difícil de explicar. Eu ouço a canção e alguma coisa bate no meu lado intérprete, de querer trazer aquela canção para o meu universo musical, é um sentimento de querer ter feito essa música, se desse faria essa música. É ou menos esse tipo de sensação que me faz trazer uma canção não minha para o repertório.

maria bethânia

As músicas “Tua” e “Era Pra Ser” foram gravadas antes por Maria Bethânia. Deu um gostinho especial registrar agora?

CClaro, é muito mais desafiador. Qualquer coisa que a Maria Bethânia tenha gravado, não vejo nenhum motivo para alguém gravar de novo. A única desculpa é no caso da pessoa ter escrito a canção, mas nenhuma pretensão de fazer as gravações como ela faz. Tem uma coisa muito bonita no jeito que ela escolhe as canções, que ela se apropria. Fui eu que escrevi a canção, mas ela transforma a canção em uma canção dela. Quando vou gravar, não posso dizer que não tenha sofrido a influência da gravação dela na minha própria canção.

Você manda todas as músicas novas para a Bethânia? Ela sempre aparece com uma novidade sua.

CEu faço as canções e envio para ela por e-mail, com apenas um título que é ‘para seu conhecimento’. Ela já sabe que é uma canção que está ali. Se tiver cinco canções vou mandar cinco e-mails ‘para seu conhecimento’. E ela gosta de umas e grava, e quando grava, isso que é interessante entender por dentro, ela canta canções que escrevi. Então consigo entender o trabalho. Mais do que só me sentir impactada, entender por que caminhos ela vai para tornar a canção dela.

Maria Bethânia é uma influência na sua carreira?

CEu acho que é um grande norte para qualquer artista, porque aquilo é de uma integridade, de uma dignidade. Uma pessoa que faz aquilo porque quer fazer, por nenhum outro motivo. E é interessante também que durante a trajetória dela, ela sempre foi ela, os movimentos, as coisas passaram, e ela sempre foi Maria Bethânia.

Você custou a entender que Maria Bethânia era uma pessoa por só escutar a voz?

O que aconteceu é que quando a minha tia me apresentou o trabalho de Maria Bethânia, e eram discos em que ela estava cantando ao vivo, e minha tia gostava disso porque ela declamava poemas de Fernando Pessoa. Quando ouvia aquela voz, com a idade que tinha, com o pouco que conhecia, aquela voz não parecia de uma pessoa, uma pessoa que acorda escova os dentes e toma café, era um ente, era um ser. Então conhecer a pessoa Maria Bethânia, claro que quando conheci já tinha um pouco mais de idade, de maturidade, mas mesmo assim. É uma coisa impressionante, porque já vi alguns documentários onde em certos momentos ela própria se sente assim, ela tem consciência que a voz dela é um dom.

Como foi o seu primeiro encontro com ela?

O primeiro encontro pessoalmente não lembro. Eu não lembro porque acho que, se não me engano, foi por acaso. Foi em um teatro, em um espetáculo de alguém, no hall de entrada, alguma coisa assim. Então não foi um acontecimento assim que tenha tanta memória.

o show

No novo show terá músicas dos três discos?

Vai ter música dos três discos com certeza. Eu não ouvi os três, mas tem canções do “Maritimo”, do “Maré” e do “Margem”. Tem inclusive uma canção muito importante que está no disco “Público”, a “Maresia”. Tem algumas músicas que não podem não estar nesse roteiro.

Como é esse processo de preparar um show novo após o lançamento do disco?

Bom, esse dessa vez não é muito parecido com os shows normais porque ele é relativo a trilogia. O processo de preparação do show é interessante porque aí a gente está sabendo o que vai tocar para as pessoas. É um tipo de contagem de compassos diferente, com o objetivo de tocar para uma plateia. Na minha cabeça é um pouco mais específico do que quando você faz um álbum. Você não sabe quem vai ouvir aquilo, é um pouco mais aberto assim. Tocar para aquele público que vai assistir porque quer assistir, e a gente fazer disso uma comunhão, um encontro com a plateia, cada noite uma, é uma coisa muito legal. A gente já começou os ensaios, vamos fazer em algumas etapas, e eu acho que vai ser um roteiro muito prazeroso de se fazer no palco.

Você muda alguma coisa quando o show é realizado em países que não se fala o português?

Talvez mude sim, talvez em uma ou outra canção, em um ou outro lugar eu possa mexer. Muitas vezes uma ou duas canções são o suficiente para quebrar um certo ar de inacessibilidade em função da língua. É possível, mas ainda não cheguei aí porque estou concebendo o roteiro como ele será no Brasil e em Portugal, onde se fala português, na África de língua portuguesa. Um show nesses lugares ele é um, e ele é pensado principalmente em língua portuguesa, o resto depois eu vou pensando caso a caso.

O que podemos esperar do cenário?

Não sei ainda, estou pensando no cenário. Mas ideia a para o mundo, quer dizer, a minha ideia para as coisas, para o mundo, sobretudo hoje, e filosoficamente pensando, gosto da simplicidade. Acho que ela é, mais do que nunca, muito necessária.

A capa tem uma mensagem bem forte. Qual sua relação com a arte visual?

Sempre gostei muito, o meu trabalho musical é muito influenciado pela obra de artistas plásticos de diversas gerações, de estilos e pensamentos. É uma coisa que influencia e dialoga com o meu trabalho.

O clipe de “Margem” também chegou com muita força. Como foi cortar o cabelo em frente a câmera?

Foi bem divertido, porque é o tipo de take, é o tipo de filmagem, de gravação que você não tem o take 2, você faz aquilo e aquilo tem que valer. Muitas vezes gravar um clipe não é assim, é tudo muito decupado, preparado, ensaiado, vai isso, faz aquilo. E aquilo ali foi o registro de um momento que, depois que fiz, não dava para fazer de novo. Isso foi muito legal.

Durante muito tempo poucas mulheres compunham. Acho que ainda poderíamos ser mais

São quase 30 anos de estrada. Como você administra sua carreira?

Administro igual a vida, um dia de cada vez, vivendo o momento presente, escolhendo pessoas que admiro, autores que admiro, músicos que admiro, aprendendo com os erros.

Há 25 anos você é uma das principais compositoras brasileiras. Qual é a sensação?

Na verdade, a sensação é de que precisamos de mais compositoras. Durante muito tempo poucas mulheres compunham. Acho que ainda poderíamos ser mais.

Esse ano sua obra foi revisitada por uma geração de artistas. Como se sentiu? Você considera que já tem uma obra?

Acho que a partir desse disco, do “Nada ficou no Lugar”, é impossível tentar dizer que não tenho uma obra, nem para mim mesma. Foi muito bom, foi um disco que adorei ouvir. O pessoal queria que eu colaborasse, que ficasse junto, desse palpite. Talvez até fosse bom para eles, mas o que queria era exatamente o que aconteceu. Recebi um disco, não sabia o que era, tipo surpreendam-me. Gostei muito de tudo, achei muito legal, cada um fez o que quis como quis, alguns receberam sugestão de canções, trocaram a canção. Eu entendi que tudo foi feito com muita liberdade. Sou muito grata, fiquei muito feliz. E dá essa sensação que tem aí no mundo uma obra.

Você sempre buscou a simplicidade no seu trabalho. Dá muito trabalho até chegar a esse ponto de simplicidade? É difícil descomplicar na música?

Dá trabalho, mas não é difícil. No sentido de que dá trabalho você ter que lapidar, isso leva tempo, você tem que deixar decantar. É todo um processo que não tem atalho, tem que passar pelo processo para chegar até a simplicidade. Agora, ser difícil, doloroso, não é. É um tipo de coisa que você almeja conquistar, e você quer isso, não é doloroso. É bom. Agora, quanto ser difícil descomplicar a música, acho que é uma questão de opção. Se você quer complicar você pode, e é mais fácil. Descomplicar não é mais fácil, mas também não é uma coisa terrível. Vai do desejo da pessoa que está fazendo aquela música.

vida em coimbra

Qual a melhor parte de trabalhar como professora?

É que tem que estudar muito. Eu já dei o curso três anos e a cada ano o curso melhora na minha opinião, porque tenho adorado estudar sobre isso. Estudar para poder ensinar como fazer canções é um sonho.

A universidade está mudando a forma de você fazer música?

Acho que é possível. Em primeiro lugar o curso de composição me faz tomar algumas consciências e utilizar alguns procedimentos, até como experiência para poder passar para os alunos e tudo, nesse sentido sim. Uma outra coisa interessante que a vida acadêmica dá é uma organização no tempo, cronogramas um pouco mais planejados, o que na vida na música é um pouco mais caótica. A vida acadêmica é planejada com muito mais antecedência. Então sei os horários das aulas, dos trabalhos, a hora de estudar, a hora de compor. Fica um pouco mais organizado e me dá a impressão de que assim posso produzir mais. Talvez seja só uma impressão, mas me parece.

Estudar para poder ensinar como fazer canções é um sonho

Como se ensina a escrever canções. Qualquer um pode escrever?

Não sei se qualquer um. Por um lado, qualquer um pode escrever, mas acho que é preciso interesse, desejo, motivação. Eu falo muito para os meus alunos isso, dou um curso de como escrever canções, mas a primeira coisa que quero que eles pensem é para quê escrever canções. A partir daí que o curso começa. Acho essas questões bem importantes. O que gosto de desmistificar, por exemplo, é o fato de que não é necessário tocar um instrumento para compor. Uma série de dogmas que existe, mitos e inverdades sobre a composição, que acho que às vezes fica muito assustador para as pessoas comporem. Fazer composições de qualidade, querer sempre melhorar, fazer um trabalho com acabamento, equilíbrio entre os elementos da canção, é todo um trabalho. Então no sentido de que nem todo mundo acha graça nisso, nem todo mundo pode fazer uma canção.

Teria espaço para o seu curso no Brasil?

Não sei se teria espaço para meu curso no Brasil. Eu não vejo muito espaço para cursos no Brasil nesse momento que a educação está tão castigada. Em todo caso não recebi convites para fazer o curso, e acho que ele é muito relativo aqui. As coisas de Coimbra, da relação da universidade de Coimbra com a história do Brasil.

Usando a frase de John Cage (que você citou em uma entrevista): se duas pessoas no mundo fazem a mesma música já é demais. Você faz uma música única?

Todo o meu interesse é fazer uma música única, porque acho que cada pessoa, que cada música é feita só porque aquela pessoa pode fazer aquela música. Só posso fazer as canções que faço, só você pode fazer as canções que você faz. Se as pessoas começam a diluir muito fazendo canções que não são de ninguém, isso que é demasiado, porque aquilo não é nada.